Oncologista aponta maior conscientização e ampliação do acesso aos exames, mas alerta que muitos casos ainda são diagnosticados em estágio avançado

O mês de novembro coloca em evidência um dos temas mais importantes da saúde masculina: o câncer de próstata. Embora a doença seja historicamente mais frequente após os 65 anos, novos dados do Ministério da Saúde mostram um movimento que exige atenção. Entre 2020 e 2024, o número de atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) para tratar câncer de próstata em homens com até 49 anos cresceu 32%, passando de 2,5 mil para 3,3 mil procedimentos no período.
Segundo o oncologista Denis Jardim, líder nacional da especialidade de tumores urológicos da Oncoclínicas, o crescimento não significa, necessariamente, que mais homens jovens estejam desenvolvendo a doença. O aumento, explica ele, está relacionado a três fatores principais: maior conscientização, ampliação do acesso à rede de saúde e mudança de comportamento em relação ao autocuidado masculino.
“Campanhas de prevenção, especialmente o Novembro Azul, vêm contribuindo para que mais homens, inclusive abaixo dos 50 anos, busquem uma avaliação médica preventiva. Também observamos um movimento gradual de redução do preconceito em relação às consultas e exames, aliado ao desejo de envelhecimento saudável e ao acesso mais amplo à informação”, afirma Jardim.
Contudo, os dados trazem um alerta importante. Entre os homens abaixo dos 50 atendidos no SUS, 85% receberam quimioterapia, enquanto 10% a 12% foram submetidos à cirurgia e 3% a 4% à radioterapia, um perfil que indica que muitos pacientes ainda chegam aos serviços de saúde com a doença em estágio avançado.
“Quando identificamos o câncer de próstata no início, as chances de cura ultrapassam 90%. Mas quando o tumor se manifesta por sintomas, geralmente já estamos diante de uma doença mais avançada, que exige tratamentos mais intensivos e pode impactar de forma significativa a qualidade de vida”, pontua o oncologista.
Além disso, fatores como obesidade, sedentarismo, tabagismo e alimentação desequilibrada estão entre os riscos que vêm ganhando relevância entre adultos jovens. Tendências globais reforçam o alerta: o número de novos diagnósticos de câncer em pessoas com menos de 50 anos aumentou de forma significativa nas últimas décadas.
Além disso, vale lembrar que existem também diferenças importantes no comportamento da doença entre faixas etárias. “Quando o câncer de próstata aparece em homens mais jovens, ele pode apresentar características mais agressivas e evolução mais rápida. Já em pacientes mais velhos, podem ser diagnosticados casos de evolução mais indolente e a vigilância ativa pode ser uma estratégia segura. Como isso não é uma regra, cada caso precisa ser avaliado individualmente”, explica Jardim.
Entenda sobre o câncer de próstata
Considerado o tipo mais comum de câncer nos homens, ficando atrás apenas dos tumores de pele não melanoma, o câncer de próstata ainda é repleto de dúvidas que merecem atenção. Para cada ano do triênio 2023-2025 são esperados 71.730 diagnósticos da doença, sendo que 75% dos casos ocorrem a partir dos 65 anos, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca).
De acordo com o oncologista, a próstata é uma glândula do tamanho de uma noz, que tem a função de produzir o chamado líquido seminal, responsável por nutrir e transportar os espermatozóides. Presente apenas em pessoas do gênero masculino, está localizada na frente do reto, abaixo da bexiga, e envolve a parte superior da uretra, canal por onde passa a urina.
O especialista comenta ainda que a maioria dos casos pode ocorrer esporadicamente. “Contudo, existe um número representativo de tumores de próstata que estão associados a fatores genéticos hereditários. A presença de outros casos na família aumenta esse risco, mas a hereditariedade pode ocorrer mesmo na ausência destes casos “, explica.
Além disso, algumas mutações genéticas específicas, como nos genes BRCA1 e BRCA2, comumente associadas a tumores com alta incidência em mulheres, também podem aumentar o risco de câncer de próstata. “A hereditariedade desempenha um papel importante em uma pequena porcentagem dos casos, mas o conhecimento desse fator permite uma estratégia de rastreamento mais direcionada”, reforça Jardim.
Diagnóstico e tratamento
O câncer de próstata tem uma perspectiva de cura otimista caso seja identificado rapidamente. “De maneira didática, podemos dizer que durante toda a vida, nossas células se multiplicam e as antigas são substituídas pelas novas. Contudo, quando há um crescimento descontrolado, são formados tumores tanto benignos, quanto malignos – como é o caso do câncer de próstata”, diz Jardim.
Por ser um tumor silencioso, a principal ferramenta para diagnóstico em fases iniciais da doença é o exame de PSA. No Brasil, segundo o Inca, a cada dez homens diagnosticados com câncer de próstata, nove têm mais de 55 anos.
No começo, pelo fato dos sintomas serem silenciosos, a doença comumente é detectada a partir da avaliação clínica e/ou exame de PSA. Quando aparentes, os sinais mais comuns são: dificuldade para urinar, presença de sangue na urina, parada de funcionamento dos rins – indicam estágio avançado -, além de problemas decorrentes da disseminação para outros órgãos, tal como dor, nos casos de metástases ósseas.
Por isso, a conscientização sobre a rotina de acompanhamento médico e o rastreamento ativo é sempre a melhor opção. Homens que se encontram no grupo de risco, composto por quem tem mais de 50 anos ou com histórico familiar, devem estar atentos aos exames necessários para rastreamento do câncer de próstata.
“Por apresentar sintomas mais evidentes quando a doença já apresenta evolução, é recomendável que homens a partir de 50 anos façam anualmente o exame clínico (toque retal) e a medição do antígeno prostático específico (PSA) – feita em unidades de nanogramas por mililitro (ng/ml) por meio de um exame simples de sangue – para rastrear possíveis alterações que indiquem aparecimento da doença. Quando há suspeita da neoplasia, é indicada uma biópsia através de ultrassonografia transretal para a confirmação do diagnóstico, precedida muitas vezes de uma ressonância”, destaca.
Para a definição do tratamento, é necessário analisar o estágio e agressividade do tumor e, com isso, o oncologista irá projetar individualmente alternativas terapêuticas. Já nos casos da doença localizada, a cirurgia, radioterapia associadas ou não ao bloqueio hormonal e a braquiterapia podem ser uma opção, além da vigilância ativa em casos selecionados. “Quanto aos pacientes que apresentam metástases, temos uma série de abordagens que podem ser realizadas, como quimioterapia, bloqueio hormonal, medicamentos para controle da ação da testosterona e ainda os chamados radioisótopos, que são uma nova classe de medicamentos com partículas que se ligam ao tumor e passam a emitir doses de radiação local”, orienta Denis Jardim.


