Inovação e inclusão: Alunos da UFRN desenvolvem mesa escolar adaptada para criança com TEA


Por: Adrielen Vilela – Ascom/ECT
Mobiliário une ensino, tecnologia e impacto social, dialogando com políticas institucionais de inclusão na UFRN. Foto: Cícero Oliveira/Agecom
Uma educação inclusiva é muito mais do que a garantia de vaga nas escolas. É preciso fornecer recursos de acordo com as necessidades específicas de cada estudante. Benício, 8 anos de idade, estuda no Núcleo de Educação da Infância da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (NEI/UFRN). Curioso e bastante expressivo, o garotinho é desafiado diariamente a superar barreiras impostas pelo autismo e pela baixa visão, sobretudo em uma sala de aula convencional.

busca por uma solução personalizada para atender às necessidades sensoriais, ergonômicas e visuais da criança partiu da Comissão Permanente de Inclusão e Acessibilidade do NEI em conjunto com a Secretaria de Inclusão e Acessibilidade (SIA/UFRN). O objetivo era simples e, ao mesmo tempo, significativo: criar um mobiliário que proporcionasse mais conforto, segurança e autonomia durante as atividades escolares da criança.

A iniciativa ganhou força dentro da Escola de Ciências e Tecnologia (ECT/UFRN), e deu seus primeiros passos com o trabalho de estudantes de Ciências e Tecnologias Aplicadas (CTA), com ênfase em Engenharia Biomédica, disciplina extensionista do curso de Ciências e Tecnologia (C&T), em parceria com outros setores da UFRN.

Tecnologia assistiva

Profissionais e estudantes da UFRN atuam juntos para promover ambiente de aprendizagem mais inclusivo a aluno do NEI. Foto: Felipe Ribeiro

Os materiais utilizados foram fornecidos pela Divisão de Materiais e Patrimônio (DMP/UFRN), com peças que iriam para descarte e ganharam uma nova finalidade dentro da lógica de reaproveitamento e sustentabilidade. A execução da mesa envolveu o trabalho de João Maria Alves Frazão (técnico em Mecânica), Francisco Chavier Ribeiro Batista (mecânico) e Christian Jesus Sodré (operador de centro de usinagem), todos do Laboratório de Manufatura do Núcleo de Tecnologia Industrial, do Centro de Tecnologia (CT/UFRN).

A cadeira utilizada pelo estudante também recebeu adaptações específicas, executadas por Ilmara Pinheiro, técnica de Laboratório do Departamento de Engenharia Têxtil (DET/UFRN). A equipe da SIA à frente da proposta foi composta pela fisioterapeuta Lívia Oliveira, pela psicóloga Danielle Garcia e pelas pedagogas Marília do Vale e Juliana Barreto.

Do ponto de vista pedagógico e clínico, a iniciativa reuniu informações fornecidas pelo professor da criança, pela equipe do Atendimento Educacional Especializado (AEE) do NEI e pela fisioterapeuta da SIA, que acompanhou o caso. A mesa foi pensada para reduzir estímulos, favorecer uma postura adequada, acomodar estereotipias de membros inferiores, melhorar a leitura/escrita e permitir ajustes de altura e inclinação. A estrutura é dinâmica e pode ser personalizada de acordo com as preferências da criança.

Em 2011, a fisioterapeuta da SIA, Lívia Oliveira, realizou um estudo sobre a prescrição do mobiliário escolar adaptado para alunos com paralisia cerebral em escolas públicas, e menciona que o surgimento de dor ou desconforto é um importante fator observado quando introduzida a perspectiva de permanência do aluno na sala de aula, visto que o surgimento de incômodos podem provocar desatenção e dificuldades no processo de aprendizagem e interação social.

Uma mesa sob medida

Professor Rivaldo Neto destaca a importância no atendimento a necessidades específicas de aprendizagem de cada aluno. Foto: Cícero Oliveira/Agecom

A mesa, que carrega consigo o trabalho integrado de docentes, técnicos, estudantes e setores administrativos, foi entregue no início de dezembro de 2025, no próprio NEI, onde a equipe pedagógica teve o primeiro contato com o mobiliário e realizou os testes iniciais. O clima foi de emoção por parte da família da criança e reconhecimento pelo esforço conjunto.

Em sala de aula, o professor de Benício, Rivaldo Neto, destacou a importância do trabalho. “O dia de hoje corresponde a uma ação colaborativa entre o NEI (o Colégio de Aplicação da UFRN) e demais departamentos desta instituição que pensam a educação inclusiva. O produto aqui experimentado corresponde às necessidades específicas de aprendizagem de uma criança e foi pensado de maneira colaborativa, na perspectiva do desenho universal. Não somente Benício, mas também outras crianças podem se beneficiar desta parceria”.

A equipe do AEE também comentou o impacto imediato da solução para o estudante em seu desenvolvimento escolar. Segundo Linda Carter, professora do atendimento educacional especializado do NEI, “a mesa contribui no sentido de trazer uma postura adequada, de dar maior conforto para que a criança tenha os movimentos estereotipados dos seus membros inferiores acolhidos e também no processo de escrita e de leitura, porque com o plano inclinado, essa criança não vai mais precisar se debruçar sobre a mesa”.

Mesa adaptada proporciona bem-estar e promove o acesso a conteúdos. Foto: Cícero Oliveira/Agecom

Além disso, o projeto reforça a aplicação da Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) na área da educação, que foi diretamente impactada pelo Decreto nº 12.686/2025, um marco para a criação da Política Nacional de Educação Especial Inclusiva.

Formação prática

Para os estudantes da ECT, o projeto representou uma experiência concreta de aplicação dos conhecimentos de Engenharia Biomédica e design inclusivo. A aluna de CTA, Susana Sabino, integrante do grupo responsável pelo desenvolvimento da mesa, explicou como a proposta surgiu e foi construída pensando em cada detalhe acerca das necessidades e dos cuidados extras que envolvem o produto final. “A mesa precisava ter uma regulagem da inclinação do tampo e uma regulagem da altura, além de ganchos para a rede de autorregulação sensorial e cantos arredondados, evitando metal, para trazer mais segurança”, diz Suzana.

A professora Andrezza Souza, responsável pela disciplina de CTA, destacou que iniciativas assim reforçam a função social da Universidade, seja com o reaproveitamento de materiais ou a criação de uma tecnologia assistiva que pode trazer benefícios para o aprendizado. Andrezza diz que a proposta da disciplina é a realização de trabalhos mais práticos e soluções para problemas reais fora das paredes da Universidade, e, com os conhecimentos que os alunos já possuem, realizar projetos executáveis.

“Com essa disciplina, vem a proposta de alavancar os alunos para eles enxergarem as possibilidades, as suas capacidades, porque, muitas vezes, eles saem dos cursos de Ciências e Tecnologia e não têm noção do quanto já conseguem fazer. Então, executar um projeto do início ao fim – achar o problema, pensar na solução e como fazer a execução dele – é por conta completa dos alunos. Eles conseguiram executar em tempo hábil e, hoje, a gente trouxe para a escola a proposta finalizada”, reafirma a professora.

Cultura da inclusão

Equipe multiprofissional buscou solução personalizada para atender às necessidades sensoriais, ergonômicas e visuais da criança. Desenvolvimento de outros objetos adaptados já é discutido pelo grupo. Foto: Felipe Ribeiro

A mesa representa uma solução construída a muitas mãos, capaz de transformar a rotina de uma criança e fortalecer a cultura de inclusão na educação básica e no ensino superior.

A ação reforça o compromisso da ECT com iniciativas que unem ensino, tecnologia e impacto social, dialogando com políticas institucionais de inclusão e com o papel da Universidade pública na criação de soluções voltadas para a comunidade. O projeto abre espaço para novas ideias e outros desenvolvimentos de objetos adaptados, que já começam a ser discutidos. A intenção é documentar o processo para que o modelo possa ser replicado em diferentes contextos dentro e fora da UFRN.

Segundo a professora Andrezza, os envolvidos no desenvolvimento do mobiliário já estão realizando o estudo patentário para o registro do móvel como uma criação do grupo. A ideia será incubada e, para a execução de novas produções, a equipe iniciará uma busca por parceiros e fomento. Andrezza afirma que já existe uma demanda do NEI para a sala de acessibilidade da instituição ter um mobiliário idêntico, mas que, por enquanto, o próximo passo é a avaliação da equipe docente para a necessidade de ajustes iniciais e estudar a sua produção em grande escala.

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