Morte de Titina Medeiros reacende alerta sobre o câncer de pâncreas, um dos mais agressivos e letais


A morte da atriz potiguar Titina Medeiros, neste domingo (11), vítima de câncer de pâncreas, surpreendeu familiares, amigos e o público em geral. A doença que a acometeu é reconhecida pelos médicos como uma das formas de câncer mais agressivas e difíceis de tratar, com diagnóstico frequentemente tardio, o que reduz drasticamente as chances de cura.

Segundo a oncologista Dra. Juliana Florinda, presidente do Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais,  os tumores pancreáticos tendem a crescer de forma silenciosa nas fases iniciais, sem causar sintomas claros no início. “Quando os sinais aparecem, geralmente a doença já está em estágio avançado”, explica. Essa característica é uma das principais razões de sua letalidade.

Por que o câncer de pâncreas é tão agressivo?

O pâncreas está localizado em uma região profunda do abdome, rodeado por vasos sanguíneos importantes. “Quando o tumor envolve essas estruturas, muitas vezes é impossível realizar a cirurgia ressectiva, que seria a única opção curativa”, detalha Dra. Juliana Florinda

Além disso, as células desse câncer apresentam crescimento acelerado e capacidade de invadir outros órgãos e gerar metástases precocemente, fatores que complicam ainda mais o tratamento. Essa combinação de evolução silenciosa e agressiva faz com que o câncer de pâncreas seja frequentemente diagnosticado tardiamente.

Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) revelam que no Brasil, sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de pâncreas ocupa a 14ª posição entre os tipos de câncer mais frequentes. É responsável por cerca de 1% de todos os tipos de câncer diagnosticados e por 5% do total de mortes causadas pela doença.

O risco de câncer de pâncreas aumenta com idade avançada. Raro antes dos 30 anos, tornando-se mais comum a partir dos 60.

Em nível global, são mais de 510 mil novos casos de câncer de pâncreas por ano, e o número de mortes acompanha de perto — um reflexo da dificuldade de tratamento e do prognóstico ruim.

Sintomas que podem passar despercebidos

Um dos grandes desafios do câncer de pâncreas é que seus sinais iniciais são vagos e inespecíficos, como:

Dra. Juliana Florinda, médica oncologista e presidente do Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais (foto: Tiago Varela)

  • Dor abdominal ou nas costas persistente
  • Perda de peso inexplicável
  • Falta de apetite
  • Cansaço excessivo
  • Diabetes de início recente em adultos mais velhos

Em alguns casos, tumores na cabeça do pâncreas podem comprimir a via biliar, levando a icterícia — pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras — um sinal que deve sempre motivar investigação médica imediata.

“Esses sintomas podem ser confundidos com outras condições menos graves, o que contribui para o atraso no diagnóstico”, comenta Dra. Juliana.

Exames e diagnóstico

Não existe, até o momento, um exame de rastreamento em rotina para câncer de pâncreas na população geral, como há para câncer de mama ou colo do útero. Quando há suspeita médica, os principais exames utilizados são:

  • Tomografia computadorizada do abdome com contraste — o mais comum
  • Ressonância magnética
  • Ultrassom endoscópico, que permite visualização próxima e biópsia

Marcadores tumorais no sangue, como Ca 19‑9, auxiliam no acompanhamento, mas não são suficientes sozinhos para o diagnóstico. O exame definitivo continua sendo a biópsia, com análise ao microscópio.

Prevenção e fatores de risco

Embora não exista uma forma totalmente eficaz de prevenção, diversos fatores de risco podem ser controlados ou monitorados:

  • Não fumar
  • Manter peso saudável e evitar obesidade
  • Controlar o diabetes
  • Evitar consumo excessivo de álcool
  • Alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras e fibras
  • Acompanhamento médico regular, especialmente em casos com histórico familiar da doença

“Em até 10% dos casos, o câncer de pâncreas pode estar ligado a síndromes genéticas hereditárias, e nesses pacientes o acompanhamento médico regular é ainda mais fundamental”, alerta a oncologista.

Tratamentos disponíveis

O tratamento depende do estágio da doença, das condições clínicas do paciente e das características do tumor. As principais opções incluem:

  • Cirurgia — quando o câncer é diagnosticado precocemente e ainda está localizado, é a única possibilidade de cura
  • Quimioterapia — pode ser usada antes ou depois da cirurgia ou como tratamento principal em casos avançados
  • Radioterapia — em situações específicas
  • Terapias-alvo e personalizadas, em casos selecionados com base em alterações genéticas

Um chamado à conscientização

A morte de Titina Medeiros traz para o centro do debate público a urgência de um olhar mais atento sobre o câncer de pâncreas, uma doença que muitas vezes não dá tempo para reagir. Como lembra Dra. Juliana, “a dificuldade de diagnóstico precoce é um dos maiores obstáculos — por isso, perceber sinais precoces e procurar atendimento médico pode fazer a diferença”.

Com incidência e mortalidade em crescimento em várias regiões do mundo, e taxas de sobrevida que permanecem baixas quando o diagnóstico é tardio, a luta contra o câncer de pâncreas exige tanto mais conhecimento sobre seus sinais e fatores de risco quanto investimentos em pesquisa para melhores métodos de detecção e tratamento.

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