‘Prevenção é a palavra-chave’, diz cardiologista sobre infarto, problema cada vez mais comum entre os jovens


A morte do diretor do Grupo Rodobens, Giuliano Verdi, de 51 anos, vítima de um infarto no dia 2 de janeiro, em Trancoso (BA), retrata uma dura realidade: as doenças cardiovasculares seguem entre as principais causas de morte no Brasil e no mundo. Segundo estimativas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), cerca de 400 mil brasileiros morrem todos os anos em decorrência de problemas cardíacos.

Para a diretora nacional de Cardiologia da Rede D’Or, Olga Souza, uma parcela significativa dessas mortes poderia ser evitada com a adoção de hábitos preventivos, como o acompanhamento médico regular e a realização de check-ups anuais. Em entrevista ao GLOBO, Olga explica o que é um infarto fulminante, as principais causas e o aumento da condição entre jovens, as diferenças nos sintomas entre homens e mulheres e a importância de realizar o check up cardiológico regularmente.

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Dra Olga Souza, Diretora Nacional de Cardiologia da Rede D'Or

O que é exatamente um infarto fulminante?

O termo infarto agudo do miocárdio fulminante não é uma classificação formal reconhecida nas diretrizes internacionais, mas é utilizado na prática clínica para descrever casos de infarto que evoluem rapidamente para arritmias malignas ou morte súbita, por exemplo, geralmente devido à extensa necrose miocárdica (morte de células do músculo cardíaco) ou à oclusão total de uma artéria coronária principal.

Por que alguns infartos evoluem de forma tão rápida e fatal?

O infarto fulminante ocorre quando há isquemia súbita e intensa (obstrução da artéria coronária), levando à morte celular rápida e perda significativa de função do músculo cardíaco. A apresentação clínica pode incluir dor torácica intensa, instabilidade hemodinâmica, insuficiência cardíaca aguda, choque e parada cardíaca. A evolução do infarto fulminante é frequentemente desfavorável, com alto risco de complicações como choque cardiogênico, insuficiência cardíaca aguda e morte súbita, especialmente se o tratamento não for realizado rapidamente.

O que causa um infarto?

O infarto ocorre principalmente por um processo de aterosclerose, que é a principal causa da doença cardiovascular. A aterosclerose é um processo em que as artérias vão ficando endurecidas e estreitas por acúmulo de gordura em suas paredes. E isso acontece de uma forma lenta, bem silenciosa, muitas vezes sem sintoma nenhum. À medida que essas placas vão crescendo, elas podem obstruir a passagem de sangue nas artérias coronárias, que são as responsáveis por fornecer oxigênio e glicose ao músculo cardíaco. Então, essas placas podem aumentar de tamanho e as artérias ficarem mais rígidas, mais estreitas, comprometendo o fluxo sanguíneo. Pode a parede da artéria sofrer um dano, a placa se romper e formar um coágulo, que obstrui a passagem do sangue e isso causar um infarto.

Em qual idade o infarto é mais comum?

O infarto acaba sendo mais comum nas pessoas mais idosas, acima de 60, 65 anos.

Tem aumentado o infarto em pessoas jovens, abaixo dessa faixa etária?

Sim, realmente está aumentando. Diversos estudos recentes da literatura médica documentam o aumento de infarto em jovens.

Tem um motivo para isso?

Se deve a fatores de estilo de vida como alimentação inadequada, rica em ultraprocessados, sedentarismo pela correria do dia a dia e estresse constante, uso de cigarros eletrônicos e substâncias como anabolizantes, além dos fatores de risco como hipertensão, colesterol elevado, diabetes e tabagismo.

O infarto em jovens costuma ser mais grave em jovens do que em idosos?

O infarto é mais grave em jovens pois quando ocorre a obstrução da artéria coronária, o dano ao músculo cardíaco é mais extenso pela inexistência de circulação colateral favorecendo o risco de arritmias e morte súbita. Outro problema é que o infarto em jovens costuma ser inesperado. Por não se considerarem em risco, muitos demoram a procurar atendimento, o que aumenta a gravidade das complicações. Os sintomas são semelhantes, mas podem também ser atípicos como: dor na mandíbula, nas costas ou um desconforto atípico. Qualquer sintoma deve ser valorizado, não minimize os seus sintomas e não retarde a investigação ou a ida ao hospital.

Com qual idade é recomendado começar a fazer o check up cardiológico?

A partir dos 30, 35 anos já é recomendado fazer o check up. A partir dos 40 anos, homens e mulheres devem realmente fazer um check-up cardiológico que consta de uma avaliação médica completa e uma série de exames de sangue, em que vai se avaliar o perfil lipídico, que é o seu nível de colesterol, o seu nível de triglicerídeos, o nível de glicose, a glicemia em jejum, vai avaliar uma série de fatores. E também exames de imagem e eletrocardiograma. Esses exames de imagem podem ser solicitados de acordo com a idade do paciente e com os fatores de risco que ele já possui. Pode ser um ecocardiograma, um doppler das artérias carótidas, uma angiotomografia de coronária, um teste ergométrico ou uma cintilografia. Esses exames são direcionados pelo médico de acordo com o perfil daquele paciente, de acordo com o que ele possui de fatores de risco.

Quais são os fatores de risco?

Homens já têm uma predisposição maior a ter infarto. Então, ser do sexo masculino, ter mais de 40 anos e o fator genético, são fatores que nós não modificamos. Então, se a história familiar de um pai, irmão, tio, enfim, um parente próximo de primeiro grau, que já teve um infarto, já teve uma morte súbita ou foi submetido a um procedimento de angioplastia ou uma cirurgia cardíaca, esse filho, esse irmão ou esse parente, já tem um risco genético maior. Os outros fatores nós agregamos ao longo da nossa vida. E são fatores de suma importância, que contribuem para o processo da aterosclerose.

Quais são esses fatores que agregamos ao longo da vida?

A hipertensão arterial é o primeiro deles por ser o principal fator de risco para doenças cardiovasculares. Hoje no Brasil, isso conta com um percentual em torno de 25% dos casos. O pior é que ela é uma doença silenciosa. Na maioria das vezes, ela não causa sintoma nenhum. O paciente pode estar com a pressão acima dos níveis ideais por um longo período e o diagnóstico só ocorre quando ele manifesta uma complicação dessa hipertensão arterial. Os sintomas que a hipertensão arterial pode causar são uma dor de cabeça, um cansaço, um mal-estar, mas pode não apresentar sintoma nenhum. Por isso, a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que todas as pessoas acima de 18 anos devam ter, pelo menos uma vez, aferida sua pressão arterial. Crianças também podem ser portadoras de hipertensão arterial e devem ter esse acompanhamento. O segundo fator de risco, que também contribui muito para esse processo de aterosclerose, é o diabetes. O diabetes leva a um estado inflamatório maior no organismo e, junto com a hipertensão arterial, favorece uma lesão, que chamamos de um dano do endotélio da parede das artérias, que pode ser o processo inicial da aterosclerose. Então, a hipertensão, com os vasos mais rígidos, e o diabetes com o processo inflamatório, são os gatilhos iniciais para o processo de aterosclerose. Outro fator é o colesterol alto. Ele contribui para a formação dessas placas que vão levar à obstrução das artérias. Quando eu tenho esses fatores de risco, como a hipertensão, o diabetes e o tabagismo, por exemplo, que causam um dano na parede dos vasos, é mais fácil o colesterol se depositar naquele dano e começar o processo de aterosclerose, da formação da placa.

O sedentarismo não só aumenta o risco das doenças cardíacas, como também favorece a obesidade, e a obesidade vai levar secundariamente ao diabetes e à hipertensão arterial. As pessoas obesas têm maior risco de terem essas doenças. Alimentação inadequada, com excesso de sal, de alimentos ultraprocessados, excesso de açúcar, de gorduras saturadas, vai fazer com que seu nível de colesterol esteja mais elevado e que tenha maior o risco de diabetes por causa da glicemia elevada. É todo um conjunto de hábitos inadequados que vai levar ao processo de aterosclerose. Por fim, o estresse, que entra como o processo final de todos esses fatores que temos que controlar. Então, o check up vai tentar identificar se você já tem algum desses fatores de risco e controlá-los para que eles não evolua e não causem um problema maior. Além de detectar doenças que, por ventura, estejam na fase inicial e, com isso, possam ser tratadas e orientar mudanças de hábitos antes que surjam problemas mais sérios.

De que forma o estresse contribui para o risco de infarto?

O estresse crônico, ansiedade, depressão e isolamento social também aumentam o risco de doenças do coração. O estresse ativa mecanismos no corpo que podem levar a inflamação, aumento da pressão arterial e alterações que prejudicam o coração.

Os sintomas de infarto são diferentes entre homem e mulher?

Os sintomas são atípicos e mais sutis nas mulheres o que torna um desafio no diagnóstico de infarto. Os sintomas relatados são: náuseas; vômitos; dor nas costas e no pescoço; falta de ar; indigestão; ardência na pele; dor nos ombros, no rosto, na mandíbula; fadiga incomum; palpitações. Até a menopausa, nós mulheres temos uma proteção pelos hormônios. Após a menopausa, o risco de infarto é semelhante entre homens e mulheres. As mulheres além dos fatores de riscos tradicionais como hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes, sedentarismo, obesidade, apresentam uma maior frequência de fatores de risco não tradicionais, como estresse mental e depressão e fatores de risco inerentes ao sexo, como gravidez, menopausa e menarca, entre outros.

O que fazer imediatamente ao suspeitar de um infarto?

A primeira coisa é buscar ajuda e levar esse paciente para o hospital. Todos os hospitais têm protocolos de atendimento ao infarto e as medidas vão ser realizadas no momento que esse paciente chega para ser atendido. O tratamento do infarto preconiza o atendimento o mais rápido possível para poupar músculo cardíaco. Quanto mais se demora no tratamento do infarto, mais músculo cardíaco se perde. Porque o infarto vai levar a uma isquemia do músculo, esse músculo vai deixar de funcionar. Então, quanto menor a área de sofrimento do infarto, melhor o prognóstico para esse paciente.

Se pudesse dar um único conselho para reduzir o risco de um evento fatal, qual seria?

Prevenção é a palavra-chave. Meu conselho é que as pessoas devam sempre procurar cuidar, ter hábitos saudáveis, como alimentação adequada, fazer atividade física regular, pelo menos 150 minutos por semana, como preconizado por todas as sociedades e diretrizes, cuidar do estresse e monitorar os fatores de risco. A pressão arterial, o colesterol, a glicose, evitar o tabagismo. Controlar os fatores de risco é a forma de prevenir esse processo e proteger o coração e o cérebro.

Fonte: Jornal O Globo. 

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