Check-up ginecológico: quando deve começar?


Vamos falar sobre algo simples, e curiosamente pouco valorizado: o check-up ginecológico. Não porque ele seja agradável, confortável ou aguardado com entusiasmo — sejamos francas —, mas porque continua sendo uma das ferramentas mais eficazes que temos para cuidar da saúde da mulher ao longo da vida.

Costumo dizer no consultório que o ginecologista não é um médico “da doença”, mas da prevenção e do acompanhamento. A maior parte do nosso trabalho acontece quando aparentemente não há nada errado. E é justamente aí que mora o valor do check-up: identificar alterações antes que elas se transformem em problemas reais.

Há uma ideia equivocada de que o acompanhamento ginecológico só começa quando surgem sintomas ou só é necessário enquanto a mulher está em idade reprodutiva. Nada poderia estar mais distante da boa prática médica. O corpo feminino passa por mudanças contínuas, hormonais, metabólicas e estruturais, e cada fase exige um olhar diferente.

Na adolescência e no início da vida adulta, o foco principal é orientação. Entender o próprio corpo, os ciclos menstruais, as transformações da puberdade, a sexualidade e a contracepção fazem parte de um cuidado que é muito mais educativo do que intervencionista. Nessa fase, quando não há queixas, a consulta anual costuma ser suficiente, e nem sempre exames ginecológicos invasivos são necessários. O mais importante é criar vínculo, confiança e espaço para perguntas — inclusive aquelas que a paciente ainda não sabe formular direito.

A partir dos 25 a 30 anos, o acompanhamento passa a ter um caráter preventivo mais estruturado. O exame ginecológico clínico, o Papanicolau em intervalos regulares, a avaliação das mamas e, quando indicado, exames de imagem e laboratoriais ajudam a identificar alterações silenciosas. Também é a fase em que gestamos e temos nossos bebês, e o pré natal também faz parte desse momento. Muitas doenças ginecológicas evoluem lentamente, sem sintomas iniciais, e só se manifestam quando já estão avançadas. Prevenção, nesse contexto, não é excesso de zelo; é inteligência médica.

Após os 40 anos, entramos em uma fase de transição. Mesmo com ciclos menstruais presentes, o organismo começa a dar sinais de mudança hormonal. Aqui, o check-up ganha importância estratégica. Avaliação mamária, exames metabólicos, atenção à saúde óssea e cardiovascular passam a integrar a rotina. Vejo com frequência mulheres absolutamente assintomáticas descobrindo alterações importantes em exames de rotina — e agradecendo por termos encontrado cedo.

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Depois da menopausa, o acompanhamento ginecológico e mamário não só continua como se torna indispensável. A queda hormonal impacta ossos, coração, trato urinário, vagina, sono, humor e sexualidade. Avaliar atrofia genital, saúde vaginal, incontinência urinária e discutir qualidade de vida faz parte de um cuidado que vai muito além de tratar sintomas.

O grande valor do check-up ginecológico está justamente em evitar que doenças avancem em silêncio. Câncer de colo do útero, endometriose, miomas, infertilidade, doenças inflamatórias e infecciosas, câncer de mama, osteoporose e alterações metabólicas têm desfechos completamente diferentes quando diagnosticados precocemente.

O check-up não é um evento isolado, nem um pacote de exames sempre igual. Deve ser individualizado, respeitando idade, história familiar, estilo de vida e contexto clínico. Medicina não combina com fórmulas prontas.

Cuidar da saúde ginecológica não é sinal de fragilidade, mas de maturidade. É reconhecer que o corpo muda e que monitorar essas mudanças com informação, acompanhamento médico e prevenção é uma escolha consciente. Saúde não é ausência de doença. É equilíbrio, atenção e cuidado contínuo — em todas as fases da vida.

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