Guias publicados recentemente no Brasil e nos Estados Unidos ampliam debate sobre tempo de tela e destacam regulação digital para a proteção da infância
Por Bruno Bucis, da Agência Einstein

O uso excessivo de celulares e dispositivos eletrônicos por crianças e jovens se tornou uma das maiores preocupações de autoridades de saúde. Dois documentos publicados recentemente por sociedades médicas do Brasil e dos Estados Unidos se posicionam fortemente contra o uso de telas, com tolerância zero para bebês menores de 2 anos, e endossam evidências de que essas tecnologias podem causar dependência nos pequenos.
Um deles é o manual de orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), divulgado em dezembro de 2025, que explica como pediatras podem aplicar o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital), lei que estabelece boas práticas para crianças na internet e entra em vigor nesta terça-feira (17). Já nos EUA, a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou em fevereiro uma declaração sobre a relação de crianças e jovens com os ecossistemas digitais.
Tanto o documento da academia brasileira quanto o da estadunidense concordam que é preciso restringir o uso das redes sociais para crianças, inclusive com barreiras que as impeçam de usar as plataformas antes do limite de idade permitido. Ambas também reforçam que apenas controlar o tempo de exposição não basta: é preciso atentar-se também àqualidade do conteúdo exibido.
Muitos médicos já observam consequências práticas do desequilíbrio nessa relação. “O uso prolongado e não supervisionado das telas interfere tanto na saúde do organismo, levando ao sedentarismo e ao comprometimento dos ciclos de sono e dos hormônios que são diretamente vinculados a eles, como também expõe crianças e jovens a conteúdos potencialmente perigosos, que têm levado a transtornos alimentares, ansiedade e até o cometimento de atos de violência contra si mesmo ou contra o outro”, alerta apediatra Evelyn Eisenstein, coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da SBP.
Para coibir esses impactos, as duas sociedades aconselhamque pais e profissionais de saúde monitorem diversos aspectos do uso de telas por menores. Em um manual publicado em 2024, a SBP orienta o foco em uma série de quatro letras C: o conteúdo ao qual as crianças estão tendo acesso; os tipos decontato com outras pessoas através da internet; que condutaas crianças têm, evitando casos de trolagem e bullying; e, por fim, que contratos se estabelecem com as corporações, incluindo um alerta ao uso indevido de bets e sites de aposta por menores de idade.
Uso consciente
Os guias também apresentam recomendações de uso de dispositivos digitais por faixa etária. Em linhas gerais, para crianças com menos de 2 anos, a orientação permanece a ausência total de telas. “É sobre os bebês que o impacto é mais sensível, pois é nessa faixa etária que estamos desenvolvendo nossas ferramentas de linguagem. Já temos encarado nos consultórios crianças com comprometimento de suas capacidades comunicativas e de seus níveis de atenção por uma exposição muito precoce às telas”, relata Eisenstein.
Os primeiros contatos devem ocorrer entre os 2 e os 5 anos, quando o uso diário deve ser de, no máximo, uma hora por dia. O conteúdo disponibilizado precisa respeitar aclassificação indicativa, e é desejável que a criança estejaacompanhada de um adulto durante todo o tempo. Após o início da idade escolar, o limite passa a ser de duas horas diárias, incluindo o tempo para estudo. Já adolescentes podem ter até cinco horas por dia de exposição, evitando o período noturno e garantindo que o uso seja monitorado.
O engajamento da família é parte essencial desse controle. “O ideal é montar um plano familiar de uso de mídia. Isso envolve definir horários, locais e limites claros do uso desses dispositivos para todos da residência, lembrando a pais e mães o seu papel de modelos de comportamento, sem o uso desses aparelhos no momento das refeições ou pouco antes de dormir”, indica o psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, gerente do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.
Desconectar-se das telas, porém, pode não ser fácil num mundo em que tudo se concentra no smartphone. Por isso, o documento da AAP se refere à ideia de ecossistema digital, defendendo que esse controle de risco não seja encarado apenas como uma responsabilidade de médicos ou pais, mas que governos e corporações se engajem em estabelecer limites sólidos que protejam os usuários.
“Não se trata de incentivar um isolamento, temos que aprender a usar as tecnologias, mas com sabedoria, regulação eassumindo que estamos diante de um problema social de responsabilidade compartilhada. Bloquear e remover conteúdos danosos, perigosos e criminosos deve ser uma cobrança de todos: governos, corporações e pais conscientes”, aconselha a coordenadora do SBP.
No Brasil, o ECA Digital prevê que as empresas donas das plataformas sejam cobradas a criar ferramentas de verificação de idade precisas, com relatórios semestrais de auditoria sobre a moderação do conteúdo exibido ao público infantojuvenil.
Como avaliar se o conteúdo é benéfico
Para que os pais possam assumir uma postura consciente e avaliar corretamente o conteúdo que seus filhos estão consumindo na internet, Zoldan aconselha que sejam feitas algumas perguntas simples. “Pense se esse conteúdo é adequado para a idade da criança, se tem uma classificação indicativa. Em seguida, reflita se ele estimula a aprendizagem ou apenas é feito para o consumo passivo. Também avalie se o conteúdo está disponível em uma plataforma com excesso de publicidade e que tenha a reprodução automática de mais conteúdo após o fim daquele”, propõe. “Além disso, é preciso conversar com a criança sobre o que está sendo assistido e socializar aquele uso de telas. Fazer perguntas e estimular o pensamento crítico é o que vai ajudar num consumo mais saudável.”
Ao reconhecer que há sinais de dependência, como consumo escondido, choro e agressividade constantes por não poder voltar às telas, os pais devem buscar ajuda especializada.“Profissionais capacitados podem permitir que a família perceba onde está a lacuna, o que essa tela está preenchendo no vazio emocional da família e da criança, para poder combater o problema em sua origem”, diz Evelyn Eisenstein. Aumentar as oportunidades de lazer e de convívio familiar,distante das tecnologias, são medidas essenciais para uma relação mais saudável com as telas e o seu entorno.


