Especialistas explicam por que olhar para a saúde hormonal desde os 40 anos é tão importante quanto cuidar do corpo e da mente; dados mostram que grande parcela das mulheres enfrenta essa transição sem orientação adequada

Para muitas mulheres, a fase de transição hormonal é constantemente vista como algo que “ainda vai acontecer lá na frente”, como se fosse um evento distante na vida feminina. No entanto, essa fase começa gradualmente anos antes da última menstruação, e saber reconhecer sinais, adaptar a rotina e conversar com profissionais de saúde pode fazer toda a diferença no bem-estar físico e emocional ao longo dessa fase.
No Brasil, a idade média da última menstruação ocorre entre 48 e 52 anos, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Dados do IBGE indicam que cerca de 17 milhões de brasileiras estão no climatério e mais de 9 milhões já vivem o período pós-reprodutivo, um contingente expressivo que ainda enfrenta desinformação e subtratamento.
Para a endocrinologista e PhD Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor, o primeiro erro é reduzir essa etapa a um evento exclusivamente ginecológico.
“Muita gente acredita que a menopausa é um problema apenas ginecológico, já que nessa fase os ovários reduzem drasticamente a produção de hormônios como o estrogênio e a progesterona. Mas essa visão é limitada. Menopausa é assunto de todas as especialidades médicas, já que muitas vezes os primeiros sintomas são taquicardia ou secura das mucosas ou dores articulares e musculares, entre outros.”
Esses receptores estão distribuídos em regiões cerebrais fundamentais para funções como memória, sono, humor e regulação da temperatura corporal — como o hipocampo, o hipotálamo e áreas do córtex pré-frontal. Por isso, muitos dos sintomas vividos pelas mulheres nessa fase refletem, na verdade, a forma como o cérebro responde à queda hormonal.
A perspectiva tem ganhado espaço na literatura científica, que passou a entender a menopausa também como um processo neuroendócrino. O cérebro possui grande concentração de receptores de estrogênio distribuídos em áreas fundamentais para funções como memória, sono, humor e regulação da temperatura corporal, como o hipocampo, o hipotálamo e regiões do córtex pré-frontal. Quando os níveis hormonais começam a cair, essas estruturas passam por um processo de adaptação, o que ajuda a explicar por que sintomas aparentemente diversos podem surgir ao mesmo tempo.
Estudos conduzidos pela neurocientista Lisa Mosconi, diretora do Programa de Prevenção de Alzheimer do Weill Cornell Medical College, mostram que durante a transição menopausal há aumento da densidade de receptores de estrogênio no cérebro, um sinal de adaptação à queda hormonal.
Essa reorganização neurobiológica ajuda a explicar sintomas cognitivos frequentes nesse período, como lapsos de memória, dificuldade de concentração e a sensação relatada por muitas mulheres de “não se reconhecer”. Como descreve a própria médica, durante o climatério ou a transição para a menopausa, muitas mulheres têm a impressão de que algo está errado — como se não fossem mais elas mesmas.
“Um dos principais achados é que na transição da menopausa os receptores aumentam de densidade, sinalizando a falta de estrogênio.” Essa reorganização ajuda a explicar por que tantas mulheres relatam sensação de “não se reconhecer”. Como a própria médica descreve, “Normalmente, no período do climatério ou transição para menopausa, a sensação que se tem é ‘tem algo errado comigo, não estou me reconhecendo’.”
Preparação é estratégia, não antecipação de problema
Para a ginecologista Fernanda Dib, da Atma Soma, o problema central não é essa mudança hormonal em si, mas a ausência de preparo. “O que vemos no consultório é que muitas mulheres chegam à perimenopausa sem repertório para entender o que está acontecendo com o próprio corpo. Quando os sintomas aparecem, já há impacto no sono, na produtividade, no relacionamento e na autoestima. Preparar-se significa acompanhar hormônios, cuidar da saúde metabólica, preservar massa muscular e óssea e, principalmente, escutar os sinais precoces”, explica.
A chamada “janela de oportunidade” para a Terapia de Reposição Hormonal (TRH), conceito discutido em diretrizes internacionais como as da North American Menopause Society (NAMS), indica que iniciar o tratamento nos primeiros anos após o início dessa fase pode trazer benefícios cardiovasculares e cognitivos quando não há contraindicações. Levantamento publicado pela Editora Abril (2024) aponta que 75% das mulheres que utilizaram TRH relataram melhora significativa na qualidade de vida.
Entretanto, Alessandra reforça que a discussão não deve se limitar à prescrição. “A menopausa sempre foi apresentada como um momento de perda. Mas, na prática clínica e nas histórias que acompanho há décadas, ela se revela como algo mais complexo e menos negativo: uma reorganização do corpo. Essa negligência não acontece por falta de recursos terapêuticos; ela nasce da falta de diálogo.”
Além das mudanças hormonais, a literatura médica reconhece aumento do risco cardiovascular, perda de massa óssea e alterações metabólicas após essa transição, fatores destacados pela Organização Mundial da Saúde como determinantes importantes da saúde feminina nessa etapa da vida.
Para a endocrinologista, compreender esse processo sob uma perspectiva integrada é fundamental. “A menopausa não reduz a mulher, ela a redireciona. Com informação correta, apoio contínuo, uso das terapias disponíveis e escolhas personalizadas, essa transição pode se transformar em uma fase de estabilidade e vitalidade, não de apagamento.”
“É o fim da fase reprodutiva, não da fase produtiva. Quando a mulher chega informada e acompanhada, essa transição pode ser vivida com estabilidade, clareza e potência”, conclui Alessandra Rascovski.


