Casos da intoxicação causada por uma toxina marinha aumentam no Rio Grande do Norte. Especialista explica sintomas, riscos, tratamento e formas de prevenção sem que seja necessário retirar o peixe do cardápio.
O aumento dos casos de ciguatera no Rio Grande do Norte tem despertado a atenção de autoridades de saúde, pescadores e consumidores. A doença, provocada pela ingestão de peixes contaminados por uma toxina produzida naturalmente por algas marinhas, já soma 36 notificações em investigação apenas em 2026 no estado. Embora os especialistas reforcem que não há motivo para pânico, o crescimento dos registros evidencia a necessidade de informação para que a população reconheça os sintomas e saiba como agir diante de uma suspeita de intoxicação.
Peixe é sinônimo de alimentação saudável e faz parte da rotina de milhares de potiguares. No entanto, um tema pouco conhecido até pouco tempo tem ganhado espaço nas conversas sobre saúde pública: a ciguatera.
A doença é causada pela ciguatoxina, uma substância produzida por microalgas marinhas presentes nos recifes de corais. Essas algas são consumidas por pequenos peixes, que acabam servindo de alimento para espécies maiores. Ao longo dessa cadeia alimentar, a toxina vai se acumulando e alcança concentrações mais elevadas justamente nos peixes de grande porte que chegam aos mercados, restaurantes e residências.
Segundo o infectologista Igor Queiroz, o principal desafio é que o peixe contaminado não apresenta nenhuma característica capaz de alertar consumidores ou comerciantes. A toxina não altera cheiro, sabor, textura ou aparência do alimento. Além disso, não é destruída pelo congelamento nem pelo cozimento, o que significa que o risco permanece mesmo após o preparo tradicional.

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Os primeiros sinais da intoxicação costumam surgir rapidamente, geralmente entre 30 minutos e duas horas após o consumo. Os sintomas mais frequentes são náuseas, vômitos, dores abdominais e diarreia. Em muitos casos, o quadro se limita a essas manifestações gastrointestinais, mas algumas pessoas podem apresentar sintomas mais graves.
Entre as manifestações que mais chamam a atenção dos médicos estão os sintomas neurológicos. Dormência nos lábios e nas extremidades, formigamentos e alterações do paladar podem ocorrer dias após a ingestão. Uma característica considerada típica da ciguatera é a inversão da percepção térmica: superfícies frias podem ser percebidas como quentes e vice-versa. Em situações mais severas, a intoxicação pode provocar alterações cardiovasculares, com queda da pressão arterial, diminuição da frequência cardíaca e necessidade de internação hospitalar.
Apesar da repercussão dos casos mais graves registrados recentemente, a mortalidade da doença é considerada baixa, inferior a 1%. O risco tende a ser maior em idosos e pessoas com doenças pré-existentes, como problemas cardíacos, hipertensão e diabetes. Ainda assim, especialistas recomendam atenção imediata aos primeiros sintomas.
Ao suspeitar de intoxicação, a orientação é procurar assistência médica e informar o local onde o alimento foi adquirido ou consumido. A notificação aos órgãos de vigilância é fundamental para que seja realizada a investigação epidemiológica e para evitar que outras pessoas sejam expostas ao mesmo lote de pescado.
Os dados mais recentes apontam para uma tendência de crescimento da doença no estado. Levantamento apresentado por pesquisadores da Universidade Potiguar (UnP) identificou aumento gradual das notificações desde 2022. Se naquele ano os registros eram pontuais, em 2026 o número já ultrapassa a soma de vários períodos anteriores. Entre as hipóteses para explicar esse avanço está o aquecimento das águas oceânicas, que pode favorecer a proliferação dos organismos responsáveis pela produção da toxina.

Mesmo diante desse cenário, os especialistas reforçam que não é necessário abandonar o consumo de peixes. A recomendação é conhecer as espécies mais frequentemente associadas à doença e evitar partes onde a concentração da toxina costuma ser maior, como vísceras, fígado, cabeça e ovas. Peixes de água doce criados em cativeiro, como a tilápia, são considerados seguros. Atum e salmão, bastante consumidos em restaurantes e supermercados, também não têm sido relacionados aos casos registrados no estado.
Mais do que provocar medo, a discussão sobre a ciguatera busca ampliar a conscientização da população. Informação, vigilância e atendimento precoce continuam sendo as principais ferramentas para reduzir os impactos da doença e garantir que o peixe permaneça como um importante aliado de uma alimentação saudável.
BOX | Espécies mais associadas à ciguatera
- Arabaiana
- Bicuda (Barracuda)
- Cavala
- Cioba
- Dourado
- Garopa
- Guarajuba
- Moreia
- Pargo
- Peixe-papagaio
- Peixe-cirurgião
- Robalo
- Olho-de-boi
Orientação dos especialistas
Evite consumir principalmente as vísceras, o fígado, a cabeça e as ovas dessas espécies, regiões onde a concentração da ciguatoxina tende a ser maior. Caso surjam sintomas após o consumo, procure atendimento médico e informe imediatamente os órgãos de vigilância sanitária.
Dr. Igor Queiroz , infectologista.



