Especialistas alertam para os mitos que cercam a superdotação e defendem uma rede de apoio formada por família, escola e profissionais para garantir o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes
A criança que aprende a ler antes dos colegas, faz perguntas complexas ou demonstra interesse incomum por determinados temas costuma despertar admiração. Mas será que esses sinais indicam, necessariamente, altas habilidades ou superdotação? O assunto tem ganhado cada vez mais espaço nas escolas, consultórios e famílias brasileiras. No entanto, especialistas alertam: identificar e desenvolver esses talentos exige cuidado, conhecimento e, sobretudo, responsabilidade. Foi sobre esse tema que a psicóloga Izabel Hazim e a fonoaudióloga Cíntia Salgado discutiram durante o podcast Viver Bem, destacando desafios, mitos e caminhos para garantir que essas crianças encontrem espaço para florescer.
Muito além do “gênio da sala”
Segundo Izabel Hazim, coordenadora do Programa Talento Metrópole, da UFRN, as altas habilidades não podem ser resumidas a um desempenho escolar excepcional. A definição mais aceita atualmente reúne três características: habilidade acima da média em determinada área, criatividade elevada e motivação intensa para atividades de interesse.
Isso significa que uma criança pode apresentar altas habilidades em matemática, linguagem, música, artes, esportes ou tecnologia. O potencial, porém, não surge pronto nem se desenvolve sozinho. Ele depende das oportunidades oferecidas pela família, pela escola e pela sociedade.
A especialista explica que a precocidade é um dos sinais mais observados, mas alerta para um erro comum: nem toda criança precoce possui altas habilidades. Enquanto uma criança apenas estimulada tende a se igualar aos colegas ao longo do tempo, aquela com altas habilidades costuma ampliar cada vez mais a diferença em relação aos pares.

Diagnósticos equivocados e sofrimento silencioso
De acordo com Cíntia Salgado, muitas crianças chegam aos consultórios com suspeitas de transtornos de atenção ou comportamento quando, na verdade, apresentam características relacionadas às altas habilidades. A desatenção, por exemplo, pode ser resultado do desinteresse por atividades que não desafiam seu potencial.
Outro desafio é combater a ideia de que essas crianças são “boas em tudo”. A expectativa excessiva pode gerar ansiedade, baixa autoestima e sofrimento emocional. Muitas passam a acreditar que precisam corresponder constantemente a um padrão de excelência impossível de sustentar.
“As altas habilidades não substituem a infância”, enfatiza Izabel. Para ela, pais e educadores precisam lembrar que, antes de qualquer identificação, existe uma criança que necessita brincar, conviver com outras pessoas e construir sua trajetória sem sobrecarga ou cobranças exageradas.
Inclusão também é para quem tem potencial acima da média
Embora sejam consideradas uma forma de neurodivergência, as altas habilidades não constituem um transtorno. Ainda assim, estão contempladas na legislação brasileira de inclusão, que prevê o desenvolvimento de estratégias específicas para atender esse público.
As especialistas defendem que a aceleração escolar, muitas vezes vista como solução automática, deve ser adotada com cautela. Mais importante do que avançar séries é garantir programas de enriquecimento, atividades em contraturno e experiências que permitam o desenvolvimento pleno dos talentos sem comprometer aspectos emocionais e sociais.

Experiências como o Programa Talento Metrópole demonstram o impacto dessas oportunidades. Ao longo de dez anos, estudantes participantes desenvolveram projetos de robótica, realidade virtual, pesquisa científica e inovação tecnológica, mostrando que o potencial de uma criança não depende exclusivamente de sua condição socioeconômica, mas das oportunidades que encontra pelo caminho.
Mais do que formar talentos individuais, o desafio é construir uma sociedade capaz de reconhecer, estimular e direcionar essas capacidades para o benefício coletivo.
Congresso Brasileiro da ABENEPI 2026
Natal recebe debate nacional sobre neurodesenvolvimento e altas habilidades
As altas habilidades e a superdotação estarão entre os temas centrais do próximo congresso promovido pela Associação Brasileira de Neuropsicopedagogia (ABENEPI). O evento reunirá profissionais das áreas de saúde, educação e desenvolvimento humano para discutir identificação, inclusão e estratégias de atendimento a crianças e adolescentes neurodivergentes.
A psicóloga Izabel Hazim será uma das conferencistas convidadas para abordar os desafios relacionados às altas habilidades, enquanto a presidente do congresso, Cíntia Salgado, destaca a importância de ampliar o conhecimento sobre o tema entre professores, psicólogos, fonoaudiólogos, médicos e demais profissionais que atuam com a infância.

Congresso Brasileiro da ABENEPI 2026
- Tema: Neurodesenvolvimento, inclusão e educação
- Público-alvo: profissionais da saúde, educação e famílias
- Destaque: mesas e conferências sobre altas habilidades e superdotação
- Objetivo: promover formação multiprofissional e fortalecer políticas de inclusão e desenvolvimento infantil.


