As buscas no Google sobre sarampo aumentaram mais de 910% na primeira semana de agosto no Brasil, chegando ao patamar mais alto desde fevereiro de 2020, época em que ainda havia circulação sustentada da doença no país. A alta também fez o Brasil liderar o ranking de interesse pelo tema no mundo, à frente de Guatemala, Iêmen, El Salvador e Honduras.
Em São Paulo, onde há um esforço de revacinação de toda a população e aplicação de “dose zero” em recém-nascidos, devido à confirmação de um pequeno surto de sarampo, as buscas ultrapassaram em quase o dobro aquelas sobre a gripe. A procura por questões especificamente relacionadas à vacina contra o sarampo chegou a ser 15 vezes maior do que as ligadas à vacina da gripe.
— Numa grande metrópole, como São Paulo, há outras questões envolvidas na transmissão, como o hub aéreo de Guarulhos, estradas que ligam e movimentam pessoas de todo o estado, com grande concentração populacional, coincidindo com a volta dos turistas da Copa, a volta dessas aulas, que elevam o risco. Então são desafios enormes — diz Renato Kfouri, pediatra e infectologista, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e presidente da Câmara Técnica para a Eliminação do Sarampo do Ministério da Saúde.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/y/5/SQfVxrR9SPqbZtOzK40g/sarampo.jpg)
Abaixo, veja as respostas das principais dúvidas:
1. O que é o sarampo?
O sarampo é uma doença viral altamente transmissível. Dentro de um ambiente com pessoas não vacinadas, um infectado pode gerar até 18 novos casos. Antes da introdução da vacina, o sarampo era uma das principais causas de mortalidade infantil em todo o mundo.
Segundo o Ministério da Saúde, a transmissão ocorre de pessoa a pessoa, por via aérea, ao tossir, espirrar, falar ou respirar. A disseminação pode ocorrer entre 6 dias antes e 4 dias depois do aparecimento das manchas vermelhas pelo corpo, um dos sintomas mais comuns da doença.
2. Quem pode tomar vacina de sarampo?
O Brasil oferece a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba, como parte do calendário infantil de rotina. Ela é aplicada em duas doses, a primeira aos 12 meses e a segunda aos 15 meses. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece ainda a proteção de forma gratuita para todas as pessoas de até 59 anos que não tenham sido vacinadas.
No entanto, devido aos casos identificados na capital paulista, em São Bernardo do Campo e em Guarulhos, o Ministério da Saúde orientou, nos três municípios, a aplicação de uma “dose zero” da vacina para os bebês entre os 6 a 11 meses de vida. Ela não substitui as duas aplicações futuras que devem ocorrer normalmente seguindo o calendário de rotina.
Além disso, a pasta também instituiu, até 1º de setembro, a revacinação irrestrita de todos os moradores das três cidades de 6 meses a 59 anos de idade com um reforço, ou seja, mesmo para aqueles que já foram imunizados no passado. O objetivo é elevar rapidamente a cobertura vacinal, já que não há riscos em receber doses extras.
— Controlar o sarampo exige ações vigorosas e nos dois pilares. Primeiro, as coberturas vacinais elevadas de toda a população, não só das crianças. Acima de 95% é o ideal, mas o Brasil não tem atingido esta meta. E a vigilância de casos suspeitos, que precisam ser rapidamente reconhecidos, isolados, vacinados seus contatos para que não se transformem numa cadeia de transmissão — afirma Kfouri.
3. Quem precisa tomar vacina de sarampo?
De forma geral, todos os brasileiros de 12 meses a 59 anos de idade têm indicação para serem vacinadas contra o sarampo. Basta procurar uma unidade de saúde para receber a proteção. Em casos de exceção, como recomendado pelo Ministério da Saúde para as cidades de São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos, deve ser feita uma dose de reforço.
A vacina é contraindicada apenas para gestantes; pessoas com imunossupressão grave (como em casos de uso de quimioterapia antineoplásica, infecção pelo HIV com comprometimento imunológico grave, uso de medicamentos em doses imunossupressoras ou transplantados); indivíduos com histórico de reação alérgica grave (anafilaxia) a componentes da vacina, como neomicina, e crianças menores de 6 meses.
4. Quem já tomou a vacina de sarampo está imunizado ou precisa tomar de novo?
Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) esclarece que normalmente é considerado imunizado quem já tomou as duas doses da vacina contra o sarampo. No entanto, em situação epidemiológica de risco a SBIm orienta a realização de uma terceira dose.
— Este cenário é considerado uma exceção. Em São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos, onde atualmente existem diversos casos de sarampo confirmados, é indicada a vacinação com dose extra da vacina. Isto é, se você está em algum desses locais, mesmo que você esteja vacinado com duas doses, é preciso ser imunizado novamente. O mesmo vale para quem não foi vacinado — assegura.
5. Quem teve sarampo precisa tomar vacina?
Segundo o Ministério da Saúde, sim, quem já teve sarampo precisa se vacinar. Isso porque não há riscos na imunização, e as vacinas oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para o sarampo também protegem contra rubéola, caxumba e, no caso da tetra viral, catapora.
6. Quem não está em São Paulo, Guarulhos ou São Bernardo do Campo e já tomou a vacina precisa tomar de novo?
Segundo David Uip, médico infectologista, professor titular da Faculdade de Medicina do ABC e diretor nacional de infectologia da Rede D’or, pessoas que não estão em São Paulo, Guarulhos e de São Bernardo do Campo não precisam se vacinar novamente se apresentam o esquema vacinal completo.
7. Como o surto dos EUA tem relação com o aumento dos casos no Brasil?
A presidente da SBIm afirma que os casos de sarampo nos municípios de São Paulo foi iniciado pela chegada de pessoas infectadas provindas da Bolívia e Guatemala.
— Mas ainda existem muitos casos que estão em investigação. Então, tem casos não identificados que podem ter vindo dos países que sediaram a Copa, como Estados Unidos, Canadá e México e ainda não sabemos — explica.
Na quarta-feira (12), a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um alerta no qual informa que o número de casos de sarampo registrado na região das Américas em 2026 já é o mais alto em 22 anos.
Guatemala, com 30.371 casos e 26 mortes; México, com 12.255 infecções e 17 óbitos; Estados Unidos, com 2.260 casos, e Peru, com 1.277 contaminados, concentram 95% dos casos confirmados nas Américas. O Canadá aparece logo em seguida, com 1.107 notificações de sarampo. O Brasil tem menos de 30 registros.
8. Sarampo é catapora?
Não. Ambas são doenças infecciosas virais, mas o sarampo é causado por um vírus do gênero Morbillivirus, da família Paramyxoviridae, enquanto a catapora é causada pelo vírus varicela-zóster, que pertence ao gênero Varicellovirus e à família Herpesviridae.
O sarampo e a catapora podem ser confundidos por ambos provocarem manchas vermelhas na pele. Doenças que causam esse sintoma são conhecidas como doenças exantemáticas.
9. Qual é a vacina do sarampo?
As vacinas que protegem contra o sarampo são a tríplice viral, que evita também rubéola e caxumba, e a tetra viral, que inclui a proteção contra as três doenças, mas também contra a catapora. No Brasil, geralmente, a primeira dose é feita com a tríplice viral, aos 12 meses de vida, e a segunda com a tetra viral, aos 15 meses, já que a proteção para catapora exige apenas uma aplicação. Porém, podem ser aplicadas até os 59 anos.
A meta de cobertura vacinal preconizada pelas autoridades de saúde para manter a eliminação do sarampo é de, pelo menos, 95% do público-alvo. No entanto, no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, a cobertura com a primeira dose da tríplice viral está em 89,2%, e a com a segunda em 73,5%.
10. Quais os sintomas do sarampo?
Os principais sinais e sintomas do sarampo são manchas vermelhas no corpo e febre alta, acima de 38,5°, acompanhada de um ou mais dos seguintes sintomas:
- Tosse seca
- Irritação nos olhos (conjuntivite)
- Mal-estar intenso
De acordo com o Ministério da Saúde, em torno de 3 a 5 dias é comum aparecer manchas vermelhas no rosto e atrás das orelhas que, em seguida, se espalham pelo restante do corpo. Após o aparecimento das manchas, a persistência da febre é um sinal de alerta e pode indicar gravidade, principalmente em crianças menores de 5 anos de idade.
11. Após infectado, quanto tempo depois a pessoa transmite a doença?
Levi alerta que uma pessoa passa transmitir o sarampo a outras pessoas próximas logo após ser infectada.
— Isso equivale a um dia antes do aparecimento dos sintomas — diz.
LEIA MAIS NO: GUIA VIVER BEM.
12. Vacina de sarampo tem reação?
A vacina é considerada segura e bem tolerada. As reações adversas mais comuns são leves e temporárias, como dor, vermelhidão e inchaço no local da aplicação, febre baixa e manchas vermelhas na pele.
Entre 5 e 12 dias após a vacinação, algumas pessoas podem apresentar febre mais alta ou aumento dos gânglios linfáticos, sendo raros os casos de convulsões febris em crianças predispostas. A maioria dessas reações é autolimitada, sem complicações ou sequelas. Reações graves são extremamente raras.
13. O que causa o sarampo?
O sarampo é uma doença viral causada pela infecção por um vírus do gênero Morbillivirus, da família Paramyxoviridae.
14. O Brasil perdeu o certificado de livre do sarampo?
Apesar dos casos, o Brasil mantém o certificado de eliminação do sarampo, que chegou a ser perdido em 2019, após a queda importante no percentual de imunizados e a identificação de diversos surtos da doença pelo país, com mais de 20 mil casos registrados naquele ano, mas foi reconquistado em 2024, depois de dois anos sem transmissão local.
— Quando dizemos que é uma zona livre de circulação, não quer dizer que um ou outro caso importado não possa ser registrado, mas esses casos que adentram o nosso país não se traduzem em transmissão sustentada da doença. Em relação a casos autóctones, ou seja, originários, aqui dentro do Brasil, o último foi em junho de 2022, no Amapá.
Vanderson Sampaio, diretor de operações do Instituto Todos pela Saúde e professor da Fiocruz Amazônia e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), lembra que países como Peru, Bolívia, Estados Unidos, México e Canadá vivem surtos ativos do vírus. Nos EUA, por exemplo, 2026 já acumula o maior número de casos dos últimos 35 anos.
— Precisamos melhorar a cobertura especialmente nesse momento. Olhar para esse cenário global é importante porque hoje uma pessoa chega aqui em horas desses países distantes. Então há um alerta em São Paulo, mas os gestores de todo o país devem agir para garantir altas coberturas — afirma.
Mas, infelizmente, muitos países vivem surtos, e pessoas que se deslocam desses países para cá, ou mesmo brasileiros que viajam para fora sem vacinação, aumentam o risco de reintrodução do vírus — explica o infectologista.


