Análise de expressão gênica relacionada à creatina aponta novas perspectivas sobre sua relação com doenças renais
Mariana Melo – NPAD/UFRN

Creatina em pó é um dos suplementos mais utilizados no mundo. Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN
O uso de suplementos alimentares é uma prática cada vez mais presente na rotina de quem busca melhorar o desempenho físico e a qualidade de vida. Nesse universo, a creatina se destaca como uma das substâncias mais populares e estudadas, mas também uma das mais cercadas de dúvidas. A importância de compreender seus efeitos e a forma como atua no organismo contribui tanto para melhorar o desempenho físico quanto para prevenir diagnósticos incorretos de doenças nos rins. No entanto, suas implicações para a função renal e a segurança em indivíduos com doenças preexistentes permanecem pouco compreendidas.
Estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), publicado na revista Nutrients, trouxe luz para esse tema ao esclarecer uma das discussões mais antigas da nutrição e da medicina esportiva: afinal, a creatina faz mal aos rins? A pesquisa foi conduzida por Matheus Anselmo Medeiros, do Programa de Pós-Graduação em Bioinformática (PPg-Bioinfo), do Instituto Metrópole Digital (IMD); tendo como orientador, o professor João Paulo Matos Santos Lima, do Departamento de Bioquímica do Centro de Biociências (DBQ/CB) e do Centro Multiusuário de Bioinformática (BioME/IMD); e como coorientador, professor Bento João Abreu, do Departamento de Morfologia (Dmor/CB).

Pesquisa foi desenvolvida pelo doutor em Bioinformática, Matheus Anselmo Medeiros; pelo professor João Paulo Lima (ao centro) e pelo professor Bento Abreu. Foto: BioME/UFRN
Impacto nos rins
O trabalho utilizou recursos computacionais do Núcleo de Processamento de Alto Desempenho (NPAD/UFRN) e do BioME/UFRN para investigar como genes relacionados ao metabolismo da creatina se comportam em condições renais saudáveis e doentes. Os pesquisadores analisaram dados públicos de expressão gênica disponíveis em grandes bancos internacionais para entender como o metabolismo da creatina interage com o funcionamento dos rins em diferentes contextos clínicos.
Foram identificados 44 genes-chave ligados ao metabolismo da creatina, que atuam na produção, transporte e regulação da substância no organismo. A análise revelou que, em doenças como nefroesclerose, há uma redução na expressão dos genes responsáveis pela síntese endógena de creatina, o que pode prejudicar o equilíbrio metabólico dos rins. Já em pacientes transplantados com esses órgãos em bom funcionamento, a expressão desses genes foi mais alta, sugerindo que a capacidade de produzir creatina localmente pode estar associada à boa adaptação do órgão.
De acordo com o professor João Paulo, o trabalho reforça que a substância estudada é muito mais do que um suplemento esportivo. “O metabolismo da creatina está ligado a processos essenciais do organismo, como o equilíbrio energético e a função dos rins. Entender essa relação é fundamental para desenvolver abordagens de saúde mais seguras e baseadas em evidências”, comenta.
Para o pesquisador, os resultados ajudam a esclarecer a polêmica em torno da relação entre creatina e função renal. “Ao mostrar que o aumento da creatinina sérica pode ser um ‘falso positivo’ para lesão renal em usuários de creatina, o estudo reforça a necessidade de usar marcadores mais precisos, como a cistatina-C, evitando diagnósticos incorretos”, explica o pesquisador.
Estratégia terapêutica complementar

creatina participa do equilíbrio energético das células e depende de um conjunto de 44 genes para sua produção e transporte. Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN
Além de contribuir para o debate sobre segurança, o estudo (o mais visualizado entre os artigos publicados no periódico Nutrients no ano de 2025) aponta possíveis aplicações clínicas da creatina. Em pacientes com doença renal crônica ou transplantados, cuja produção natural da substância pode estar comprometida, a suplementação, quando bem orientada, pode se tornar uma estratégia terapêutica complementar. Nesses casos, a creatina passa a ser considerada um nutriente condicionalmente essencial, desempenhando papel relevante na manutenção da saúde dos rins.
Com o apoio do NPAD, o grupo pretende expandir a pesquisa para estudar polimorfismos genéticos, variações no DNA que influenciam como cada pessoa processa a creatina, e comparar esses padrões entre populações humanas e diferentes espécies de mamíferos. A intenção é compreender como essas variações influenciam o metabolismo da creatina e de que forma esse conhecimento pode contribuir para protocolos clínicos mais seguros e personalizados.


