Exame não invasivo pode acelerar diagnóstico e tratamento de tumores, com impacto direto na personalização da oncologia moderna
Por Redação | Com informações da Oncologia D’Or

Exames já existentes produzem muitos falsos-positivos e falsos-negativos, desencorajando sua inclusão na prática médica..
Detectar o câncer de forma rápida, precisa e sem procedimentos invasivos poderá, em breve, fazer parte da rotina médica. É o que prevê o oncologista clínico Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or e professor da Faculdade de Medicina da USP. Para ele, faltam apenas alguns anos para que a chamada biópsia líquida – um exame de sangue altamente sofisticado – esteja disponível para facilitar o diagnóstico de tumores, além de guiar decisões sobre o tratamento e acompanhar a resposta do paciente em tempo real.
“A biópsia líquida não é uma ficção científica. Já existem exames disponíveis, mas ainda com limitações de precisão. O que falta é o refinamento”, afirma o médico.
O que é biópsia líquida?
A biópsia líquida consiste na análise de fragmentos genéticos liberados pelo tumor na corrente sanguínea. Em vez de remover parte do tumor ou do tecido afetado – como na biópsia convencional – o exame detecta DNA tumoral circulante, possibilitando a identificação de mutações genéticas associadas a diferentes tipos de câncer.
Essa inovação é especialmente útil em situações nas quais o tumor está localizado em áreas de difícil acesso ou quando o paciente apresenta comorbidades que dificultam a realização de procedimentos invasivos. Além disso, como é feito por meio de uma simples amostra de sangue, o exame pode ser realizado em ambientes ambulatoriais, sem necessidade de centros cirúrgicos.
Avanços e histórico da técnica
A busca por um exame de sangue capaz de detectar câncer remonta à segunda metade do século 20. Nos anos 1960 e 70, pesquisadores tentaram identificar antígenos tumorais como marcadores de câncer, mas os resultados não eram conclusivos. Já nos anos 1990, o FDA aprovou o PSA como teste para rastreio do câncer de próstata, embora sua limitação em fornecer informações detalhadas sobre o tumor tenha sido reconhecida.
Com o avanço da tecnologia, cientistas conseguiram desenvolver métodos para separar o material genético liberado pelas células tumorais das células normais. Hoje, já existem produtos no mercado que realizam esse tipo de análise molecular, mas ainda há margem para aprimoramento, principalmente em relação à acurácia dos resultados, para evitar falsos positivos ou negativos.
Uma revolução silenciosa na oncologia

Além de detectar o câncer de maneira precoce, teste permitirá ao médico definir com mais precisão o tratamento para cada paciente.
Segundo Paulo Hoff, a biópsia líquida representa uma revolução comparável ao surgimento da aviação comercial:
“É como ver o 14-Bis de Santos Dumont levantar voo. Hoje, parece futurista, mas em breve será rotina médica”, compara.
Os impactos são múltiplos: além de permitir o diagnóstico precoce, a biópsia líquida também ajuda a identificar o tipo de tumor, personalizar o tratamento com terapias-alvo, ajustar medicamentos ao longo do tempo e monitorar se há recidiva da doença ou necessidade de terapias complementares.
Benefícios e aplicações práticas
Confira as principais vantagens da biópsia líquida:
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Detecção precoce do câncer, mesmo antes dos sintomas aparecerem
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Monitoramento em tempo real da resposta ao tratamento
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Identificação do local de origem do tumor, especialmente em casos de metástase disseminada
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Facilidade de execução, sem necessidade de procedimento cirúrgico
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Maior conforto e menos riscos para o paciente
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Redução de custos a longo prazo, apesar do alto valor inicial do exame
Custo e futuro
Por ser uma tecnologia sofisticada, a biópsia líquida ainda tem custo elevado. No entanto, Hoff alerta que é preciso analisar o impacto financeiro total:
“O exame pode evitar procedimentos invasivos, erros de diagnóstico, terapias ineficazes e sofrimento emocional. Isso representa economia para o sistema de saúde e para o paciente”, afirma.
A biópsia líquida está prestes a transformar a forma como o câncer é detectado e tratado. Embora ainda exija aprimoramento técnico, a expectativa é de que, em poucos anos, esteja incorporada à prática clínica, especialmente em centros de referência. A era da oncologia personalizada e menos invasiva está cada vez mais próxima.


