Canetas emagrecedoras: com 6 milhões de vendas em 1 ano, explode o descarte irregular: veja as regras de como devem ser jogadas fora


Relatos de Mounjaro, Ozempic e Wegovy usados descartados em lixos públicos são cada vez mais comuns

O uso crescente de medicamentos injetáveis como Mounjaro (tirzepatida) e Ozempic (semaglutida), indicados principalmente para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade trouxe uma nova preocupação à tona: como fazer o descarte correto das canetas aplicadoras usadas?

O uso de canetas emagrecedoras é cada vez mais comum entre os brasileiros. De acordo com levantamento da Close-Up International Brasil, realizado a pedido do GLOBO, entre agosto de 2024 e agosto deste ano, foram vendidas mais de 6,6 milhões de unidade desses medicamentos. E, como qualquer medicamento, esses não podem ser jogados no lixo comum. Mesmo assim, se multiplicam os relatos de pessoas que encontraram esse tipo de remédio descartado em lixeiras de aeroportos e escritórios, por exemplo.

“Os riscos de descartar esses materiais em lixo comum são causar acidentes com possíveis ferimentos aos profissionais da limpeza pública e também há o risco de contaminação do meio ambiente”, diz a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em esclarecimento enviado ao GLOBO.

No Distrito Federal, por exemplo, o descarte incorreto desses produtos preocupa o governo local e já provocou acidentes com garis e cooperados, expostos diariamente a esse tipo de risco. De janeiro a agosto de 2025, foram registrados 98 acidentes com garis provocados por materiais perfurocortantes, número que já corresponde a 77% do total de 2024. De acordo com o Serviço de Limpeza Urbana (SLU), deve ocorrer aumento de até 15% nos acidentes em relação ao ano anterior.

Segundo a diretora técnica do SLU, Andreia Almeida, os trabalhadores utilizam equipamentos de proteção individual (EPIs), mas o risco permanece.

“Quando ocorre um corte, o trabalhador é levado à unidade de saúde e precisa iniciar o protocolo de profilaxia contra HIV e hepatites. É um processo pesado, tanto físico quanto emocional”, diz Almeida, em comunicado.

De acordo com a Anvisa e o Ministério da Saúde, medicamentos devem ser considerados resíduos perigosos e tratados de maneira adequada, especialmente quando contêm materiais perfurocortantes (que furam e cortam ao mesmo tempo), como é o caso das canetas injetáveis.

Isso porque mesmo após o uso, as agulhas desses medicamentos representam risco de ferimentos e de contaminação. Além disso, os resíduos do princípio ativo (mesmo em pequenas quantidades) podem contaminar o solo e a água, afetando o meio ambiente e organismos vivos. Isso sem falar a questão da degradação do plástico utilizado na embalagem das canetas.

— Aquela agulha perfurou a pele de alguém e mesmo que tenha uma quantidade mínima de sangue, porque essas agulhas são muito finas, ainda há risco de infecção por hepatite e HIV — explica a endocrinologista Rosane Kupfer, da Comissão de Endocrinologia Ambiental da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e chefe do serviço de diabetes do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), no Rio de Janeiro. — Mas a questão maior realmente é a do lixo, do plástico, que é um problema mundial.

Mas então, o que fazer? A Anvisa orienta que o descarte de medicamentos e materiais de uso domiciliar deve seguir o “princípio da logística reversa”, previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos. Na prática, isso significa que os fabricantes, distribuidores e estabelecimentos de saúde têm responsabilidade sobre o recolhimento e descarte final desses produtos.

Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Saxenda, fabricados pela Novo Nordisk, vêm com a agulha separada da embalagem. Neste caso, a orientação é remover a agulha após o uso e descartá-la em um coletor específico para perfurocortantes, que pode ser uma caixa específica disponível em farmácias ou Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ou ainda em algum recipiente rígido e inquebrável, com boca larga e tampa, como um pote de sorvete ou uma garrafa PET, com a identificação “perfurocortante” para evitar que alguém se machuque ao manusear o objeto.

Quando a caixa ou o recipiente estiver cheio – ou o tratamento acabar – o material deve ser encaminhado para descarte em uma UBS, pois perfurocortantes não podem ser descartados na farmácia. Já as canetas, pós consumo e sem agulha, podem ser levadas a alguma farmácia que tenha pontos de coleta de programas como “Descarte Consciente” e ‘LogMed – Logística Reversa de Medicamentos” ou a uma UBS para que seja dada a finalidade correta.

No caso dos remédios específicos da Novo Nordisk, há ainda uma segunda opção para a caneta – sem a agulha, disponível em alguns municípios brasileiros. A empresa tem um programa chamado Reciclaneta, que promove a reciclagem dos dispositivos, visando transformar seus componentes, principalmente o plástico, em matéria-prima para novos fins.

— A reciclagem permite o reaproveitamento dos materiais, principalmente o plástico das canetas para novas finalidades, ao invés do envio para incineração ou aterros, que não permite o reaproveitamento dos materiais — explica Patrícia Byington, gerente de Sustentabilidade da Novo Nordisk no Brasil.

O programa já opera em São Paulo, em uma parceria com a Drogaria Pague Menos (até o momento, apenas na unidade da Rua Coriolano, 1094 – Vila Romana); no Rio de Janeiro, em uma parceria com o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE) – que foi pioneiro no programa no Brasil – e em Mauá (SP), em parceria com algumas três UBSs.

De acordo com a Pague Menos, são aceitas exclusivamente as canetas injetáveis da Novo Nordisk, exceto Norditropin. A meta é que o programa seja expandido de forma gradual para todas as lojas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

— Não são apenas esses novos medicamentos. As indústrias já produzem insulina em caneta descartável há muitos anos. Ela realmente é mais prática, só que ninguém pensou na quantidade de canetas utilizadas e que isso se tornaria um problema no mundo todo. — diz Kupfer. — Esse programa é interessante porque não se preocupa apenas com o recolhimento, mas com a reutilização desse plástico, a reciclagem.

Segundo Kupfer, o IEDE tem mais de 3 mil pacientes usando insulina e desde a implementação do programa com a Novo Nordisk, que mantém uma parceria com o governo federal para o fornecimento de insulina e outros medicamentos para o SUS, já foram retiradas de circulação mais de 100 mil canetas. Além do Brasil, o programa global ReMed, lançado em 2020 já está ativo em na Dinamarca, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Japão. Desde então, foram devolvidas globalmente mais de cinco milhões de canetas, o equivalente a 36 toneladas de plástico. No Brasil, a Novo Nordisk informa que durante a etapa piloto do programa, mais de 100 mil canetas foram coletadas.

No caso de medicamentos injetáveis em que a agulha não pode ser separada da embalagem, como o Mounjaro, que é uma caneta autoinjetora de dose única, a Eli Lilly do Brasil, fabricante do produto, orienta que, após o uso, a caneta seja colocada em um coletor de resíduo perfurocortante e levado para descarte na Unidade Básica de Saúde mais próxima.

E as embalagens? As caixas de papelão e bulas que acompanham os medicamentos podem ser descartadas na coleta seletiva comum de papel. É importante ressaltar que esse tipo de cuidado no descarte correto não serve apenas para as populares canetas emagrecedoras, mas para qualquer medicamento injetável, como insulina. O uso consciente de medicamentos vai além da administração correta, também envolve responsabilidade com o descarte.

JORNAL O GLOBO

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