É apenas uma tendência passageira do TikTok — ou um retrato inquietante de uma geração à beira do colapso emocional?
O fenômeno conhecido como bed rotting — literalmente “apodrecer na cama” — vem ganhando espaço entre jovens da Geração Z. À primeira vista, parece inofensivo: um momento de descanso prolongado, maratonas de séries, o celular em mãos e o tempo suspenso.
Especialistas apontam que o bed rotting surge como resposta à hiperconectividade e à pressão constante por produtividade. É o corpo dizendo “basta” num idioma que a sociedade ainda não aprendeu a escutar.
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O paradoxo é cruel: nunca se falou tanto sobre autocuidado — e nunca se confundiu tanto descanso com fuga.
Ficar deitado pode, de fato, aliviar a mente por instantes. Mas quando o repouso se estende por horas e vem acompanhado do uso contínuo de telas, o efeito se inverte. O corpo se torna pesado, a mente se dispersa, e o que começou como pausa vira paralisia. Dores musculares, distúrbios do sono e apatia emocional são sintomas cada vez mais frequentes.
Por trás do bed rotting existe também um aspecto social. É o protesto silencioso de uma juventude que se sente drenada — sem tempo, sem propósito, sem pausa.
Em vez de desligar, ela “hiberna” acordada, presa em uma espécie de limbo entre o descanso e a desistência.
A cama, nesse contexto, não é apenas um espaço físico, mas um território psicológico. Um lugar onde o indivíduo tenta se proteger de um mundo que exige respostas rápidas, corpos perfeitos e disposição infinita.
Há quem veja nisso uma forma legítima de resistência: um recuo necessário para preservar a saúde mental. Outros enxergam o oposto — um sinal de rendição diante da exaustão cotidiana.
Talvez as duas leituras coexistam. O bed rotting é ao mesmo tempo sintoma e defesa, fraqueza e estratégia.
A questão central não é o tempo que se passa na cama, mas o motivo pelo qual ela se tornou o último refúgio.
É possível descansar sem se desconectar da vida? Ou o repouso extremo virou a única forma de pausa que o mundo contemporâneo permite?
Os psicólogos alertam: quando o descanso se transforma em isolamento, é hora de buscar ajuda. A fronteira entre pausa e abandono é tênue.
Reaprender a descansar talvez seja o verdadeiro desafio da Geração Z — uma geração que vive cansada demais para viver.
Porque, no fim, o problema não é deitar-se. É esquecer de levantar.


