Parto vaginal espontâneo foi quase 17 vezes mais provável naquelas que entraram na água, mas entidades médicas e especialistas fazem ressalvas quanto à técnica
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein
O medo da dor do parto é algo natural para mulheres que nunca deram à luz. Mas, além da anestesia, há recursos que podem aliviar essa sensação — um deles é a imersão em água morna. Um estudo realizado por pesquisadores da Espanha e publicado recentemente na revista científica Healthcare mostra que essa estratégia traz uma série de benefícios durante as contrações: além de menos dor, também reduz o risco de laceração do períneo e do parto terminar em uma cesárea.
O trabalho investigou os efeitos nos resultados maternos e neonatais de dois métodos analgésicos durante o parto: imersão em água e analgesia epidural (diminuição da sensibilidade à dor da cintura para baixo). Os pesquisadores fizeram um estudo observacional retrospectivo das informações sobre partos na Espanha no período de 2009 a 2019. Ao todo, foram analisados dados de 1.134 grávidas de baixo risco, em gestações a termo (quando o parto acontece no tempo certo). Dessas, 567 fizeram a imersão em água para controle da dor e 567 usaram analgesia epidural.
O parto vaginal espontâneo foi quase 17 vezes mais provável no grupo de imersão em água, e as chances de passar por uma cesárea foram quase 40 vezes maiores no grupo da epidural. Além disso, a probabilidade de manter o períneo (região entre a vagina e o ânus) intacto foi mais de duas vezes maior para as que entraram na água. Já no grupo da epidural, a probabilidade de a mulher passar por uma episiotomia (corte feito no períneo) foi mais de oito vezes superior.
Ainda segundo a pesquisa, os recém-nascidos cujas mães fizeram o controle da dor com imersão em água apresentaram melhor pontuação de Apgar (teste feito logo após o nascimento para avaliar o estado geral e a vitalidade do bebê) e menores taxas de admissões na unidade de terapia intensiva (UTI) neonatal.
Controvérsias
Para o ginecologista e obstetra Rômulo Negrini, coordenador médico materno-infantil do Hospital Israelita Albert Einstein, o trabalho traz resultados importantes, mas é preciso discutir mais sobre o nascimento na água. “Realmente, a água promove o alívio da dor e menos laceração do canal de parto, como esse estudo mostrou. Mas a nossa preocupação é em relação ao risco de infecção do bebê, pois a água não é estéril e a mulher pode fazer xixi e cocô dentro da banheira, contaminando o líquido”, alerta Negrini.
A Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) não recomendam que o bebê nasça na água. “No geral, as revisões sistemáticas não observaram aumento na frequência de resultados adversos [para a mãe]. Em contrapartida, faltam dados sobre segurança e eficácia dessa prática para o recém-nascido, bem como sobre resultados em longo prazo”, afirma o Departamento Científico de Neonatologia da SBP, em nota enviada à Agência Einstein.
Em diretriz divulgada em 2022, o Ministério da Saúde orienta que “sempre que possível, deve ser oferecido à mulher a imersão em água para alívio da dor no trabalho de parto.” No entanto, isso se aplica à primeira fase do parto; na etapa expulsiva, em que o bebê começa a sair pelo canal vaginal, a pasta informa que “não há evidências suficientes e de qualidade para apoiar o segundo período do parto na água, sendo que o mesmo deve ficar restrito a ensaios clínicos.”
Apesar de o estudo espanhol associar o parto na água a menos lacerações do períneo, o trabalho não deixa claro os motivos que levaram um grupo a precisar de anestesia e cesárea. “A analgesia foi necessária por alguma dificuldade no trabalho parto? Se sim, os resultados seriam piores porque o parto era mais difícil”, comenta Negrini.
“A principal crítica é que esse é um estudo retrospectivo, onde os pesquisadores foram buscar o que aconteceu lá atrás e não acompanharam as mulheres durante o processo. Por isso, não sabemos o que a mulher desejava naquele momento”, avalia o obstetra. “As que tiveram o parto na água, por exemplo, poderiam estar mais motivadas ao parto vaginal desde o início do processo por desejarem um parto com mínima intervenção.”
Segundo o médico do Einstein, cerca de 80% das mulheres optam pela cesárea por medo da dor do parto. Daí porque começaram a surgir alternativas para alívio da dor que não fossem exclusivamente a anestesia, como música, massagem, cromoterapia, aromaterapia, uso de chuveiro com água morna e a imersão na banheira.
“Vários estudos, assim como esse agora, têm demonstrado que realmente a imersão em água alivia a dor e prolonga o início da analgesia de parto”, afirma. A grande questão é que o ápice da dor geralmente ocorre na hora da expulsão do bebê, justamente o momento em que a segurança do parto na água ainda carece de evidências.
Segundo Negrini, a analgesia no trabalho de parto ainda mantém uma sensibilidade na mulher, que consegue sentir as contrações e se movimentar sem sentir dor. “Embora esse estudo aponte pior prognóstico pré-natal e dificuldades no parto, não é o que vemos na prática. A analgesia prolonga o trabalho de parto em torno de 45 minutos e isso não é um problema”, frisa o médico do Einstein. Por outro lado, a anestesia aumenta em cerca de 3% a necessidade de parto instrumental, com uso de fórceps ou vácuo extrator.