Por muito tempo, a depressão foi tratada como um transtorno único, explicado principalmente por alterações em neurotransmissores como serotonina e dopamina. Essa abordagem segue relevante, mas já não dá conta de todos os quadros observados na prática clínica. Evidências acumuladas nos últimos anos indicam que, em uma parcela significativa dos casos, processos inflamatórios e metabólicos exercem papel central no desenvolvimento e na persistência dos sintomas.
Entre 20% e 30% das pessoas com depressão apresentam um perfil específico, marcado por inflamação de baixo grau e alterações metabólicas. Esse subtipo, descrito como depressão imunometabólica, ajuda a explicar por que parte dos pacientes não responde bem aos antidepressivos tradicionais e continua convivendo com sintomas persistentes, mesmo em tratamento.
Essa estimativa aparece em uma revisão publicada na Nature Mental Health, que reforça uma mudança importante na forma como a ciência tem compreendido a depressão.
Em vez de um transtorno homogêneo, o que se observa é a existência de quadros distintos, com bases biológicas diferentes e, consequentemente, necessidades terapêuticas também distintas.
O papel do metabolismo no cérebro
Nas últimas décadas, estudos vêm mostrando que processos inflamatórios, hormonais e metabólicos interferem diretamente no funcionamento do cérebro e no risco de transtornos do humor. A depressão imunometabólica se insere nesse contexto. Ela se caracteriza por uma inflamação leve e persistente, associada a alterações no metabolismo da glicose, da insulina e da produção de energia celular. Os sintomas costumam fugir do padrão mais conhecido da depressão clássica e incluem fadiga intensa, sono excessivo, aumento do apetite e redução do prazer nas atividades do dia a dia.
A insulina é mais conhecida por regular a glicose no sangue, mas também exerce funções importantes no cérebro. Regiões envolvidas no controle do apetite, da motivação, da memória e do humor possuem receptores sensíveis a esse hormônio. Quando essa sinalização funciona de forma adequada, o cérebro recebe informações coerentes sobre a disponibilidade de energia e o equilíbrio metabólico.
Em situações de inflamação crônica, obesidade ou resistência periférica à insulina, esse sistema se desorganiza. A insulina chega em menor quantidade ao cérebro ou perde eficiência dentro das células nervosas. O resultado é um paradoxo: o organismo pode ter energia em excesso, enquanto o cérebro funciona como se estivesse em déficit energético.
Na prática clínica e na pesquisa, torna-se cada vez mais claro que a insulina não atua apenas no metabolismo periférico. Ela participa da regulação da energia cerebral, da motivação e da cognição. Quando essa sinalização falha, o cérebro passa a funcionar como se estivesse em falta de energia, mesmo em um organismo com excesso calórico. Esse descompasso afeta o humor e ajuda a explicar quadros de depressão mais resistentes.
LEIA MAIS:
Mounjaro: Lexa diz ter queda de cabelo causada pela droga; veja os efeitos colaterais mais comuns das canetas emagrecedoras
Vale lembrar que o cérebro é um órgão com altíssima atividade metabólica e consome cerca de 25% da energia do organismo em repouso. Por essa razão, alterações nos mecanismos bioenergéticos cerebrais têm impacto direto sobre a formação de novos neurônios, as sinapses e a cognição.
Essa condição, conhecida como resistência à insulina cerebral, afeta circuitos ligados ao humor, à motivação e ao comportamento alimentar e pode aumentar de duas a três vezes o risco de depressão. Pesquisas também associam esse processo a maior fadiga, menor plasticidade neuronal e alterações na resposta ao estresse — fatores centrais para a saúde mental.
Mecanismos como esses ajudam a entender por que pessoas com depressão imunometabólica tendem a responder pior aos antidepressivos tradicionais. Quando a base do problema envolve inflamação e metabolismo, atuar apenas sobre neurotransmissores costuma produzir resultados limitados.
Esse grupo também apresenta maior risco de desenvolver doenças cardiometabólicas, como diabetes tipo 2, hipertensão e esteatose hepática. Um estudo publicado no The Lancet Regional Health – Europe mostra que depressão e alterações metabólicas frequentemente se retroalimentam.
Ignorar essa sobreposição significa perder oportunidades importantes de prevenção e de cuidado mais preciso.
Uma psiquiatria mais personalizada
Com o avanço das pesquisas, a psiquiatria passou a incorporar evidências de que fatores ligados ao estilo de vida, especialmente alimentação, atividade física, sono e manejo do estresse, influenciam diretamente processos cerebrais envolvidos no humor.
Estudos em nutrição aplicada à psiquiatria indicam que padrões alimentares pró-inflamatórios e pobres em nutrientes essenciais comprometem a comunicação entre cérebro e metabolismo. Em contrapartida, estratégias que favorecem a sensibilidade à insulina, reduzem inflamação e sustentam a função mitocondrial podem atuar como aliadas no tratamento, sobretudo em quadros mais resistentes.
Essas intervenções não substituem medicação ou psicoterapia. Elas ampliam o repertório terapêutico e auxiliam na abordagem de dimensões do problema que costumam ficar fora de modelos exclusivamente farmacológicos.
Reconhecer a depressão imunometabólica representa um avanço em direção a uma psiquiatria mais personalizada. Em vez de aplicar a mesma estratégia para todos, esse olhar permite identificar perfis biológicos distintos e combinar abordagens de forma mais eficaz.
Também aproxima a prática clínica da experiência real dos pacientes. Fadiga persistente, alterações de apetite e sensação de esgotamento não são apenas percepções subjetivas. Em muitos casos, refletem processos metabólicos mensuráveis que precisam ser considerados no cuidado.
Quando ciência e prática se encontram
A discussão apresentada neste artigo dialoga com temas do livro Alimente sua Mente, escrito por nós e lançado recentemente. O texto aborda a relação entre metabolismo, alimentação e saúde mental a partir da convergência entre ciência e prática.
A boa recepção da obra, que chegou à segunda edição, indica que esse debate já ultrapassou o meio acadêmico e responde a uma demanda concreta de profissionais e leitores. Parte desse interesse está em descobertas que ajudam a traduzir o que acontece no cérebro quando falamos de saúde mental.
O funcionamento cerebral depende de uma oferta contínua de energia, micronutrientes e compostos bioativos, essenciais para a produção de neurotransmissores, a comunicação entre neurônios e o controle da inflamação. Ainda assim, isso raramente entra na abordagem da depressão.
Entre os exemplos mais bem documentados estão as vitaminas do complexo B, em especial B6, B9 e B12. Elas participam diretamente da produção de neurotransmissores e do controle da homocisteína, um marcador inflamatório associado a maior risco de depressão e declínio cognitivo. Estudos populacionais mostram que níveis adequados dessas vitaminas estão associados a melhor desempenho cognitivo.

Pesquisas recentes também apontam relação com menor frequência de sintomas depressivos. A vitamina D também se destaca nesse contexto. Além de atuar no sistema imunológico, ela participa da regulação da serotonina e da proteção das células nervosas. Estudos observacionais associam níveis baixos de vitamina D a maior inflamação cerebral e maior risco de sintomas depressivos, especialmente em pessoas com pouca exposição ao sol.


