A influenciadora Bruna Furlan, neta do humorista Carlos Alberto de Nóbrega, revelou nesta semana que foi diagnosticada com câncer de mama aos 24 anos. A idade da paciente e o fato de a doença já ter sido diagnosticada em estágio metastático colocam o caso fora do padrão mais comum do câncer de mama, que costuma ocorrer em mulheres acima dos 40 anos.
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Bruna contou que recebeu o diagnóstico no fim de dezembro de 2025. Segundo ela, trata-se de um carcinoma mamário invasivo do tipo não especial, com expressão de receptores hormonais, HER2 negativo e presença de metástases.
“Quando descobri, fiquei muito revoltada e com uma sensação de injustiça. Pensei: ‘tenho 24 anos, como posso estar com câncer de mama?’”, afirmou.
Ela disse que decidiu tornar o diagnóstico público para alertar outras mulheres jovens. “Descobri que o câncer de mama tem crescido entre mulheres mais novas, e isso me chocou muito”, relatou. Bruna afirmou ainda que deve iniciar o tratamento imediatamente, que inclui quimioterapia e cirurgia.
Leia mais notícias:
Aumento de casos em mulheres jovens
O número de mulheres com câncer de mama em idades mais jovens cresce em números alarmantes desde 2009, segundo estudo realizado pelo Instituto do Câncer. Naquele ano, 7,9% delas tinham menos de 40 anos. Em 2020, já eram 21,8%, em um aumento de 14,8%.
Um outro estudo realizado no Brasil com cerca de 3 mil mulheres, entre 2016 e 2018, mostrou que 43% dos casos de câncer de mama ocorreram em mulheres abaixo dos 50 anos e 17% até os 40 anos.
A causa para isso está em dois fatores, segundo especialistas. O primeiro deles está associado ao estilo de vida, como a maternidade tardia, maior prevalência de sobrepeso, piores hábitos alimentares e sedentarismo. Outro fator é o refinamento do diagnóstico — os exames de rastreamento conseguem detectar o tumor muito antes.
O principal sintoma continua sendo o exame de toque para observar se não há nenhum nódulo ou caroço na região da mama. Porém, as mulheres também podem ter vazamento de líquido na mama, alteração, retração ou aumento do tamanho. As chances de cura podem chegar a 95% se o câncer for diagnosticado de forma precoce.
No Brasil, o câncer de mama é o segundo tipo de câncer que mais afeta a população feminina, contabilizando 10,5% de todos os diagnósticos. No mundo, a doença afeta 2,3 milhões de pessoas por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Ministério da Saúde preconiza que o exame de mamografia seja feito em mulheres a partir dos 50 anos, a cada dois anos.
Dependendo da fase da doença e do tipo de tumor, o médico pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapias-alvo.
Câncer de mama não é uma doença única
Embora o subtipo do tumor ajude a orientar o tratamento, na oncologia, ele é apenas uma parte da avaliação clínica. O câncer de mama não é uma doença única, mas um conjunto de condições com comportamentos biológicos distintos.
Segundo o oncologista Stephen Stefani, da Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, o manejo e o prognóstico dependem da análise conjunta de vários fatores.
“O subtipo molecular é importante porque direciona as opções terapêuticas, mas não é o único elemento que define como a doença vai se comportar. O estadiamento, ou seja, a extensão da doença no momento do diagnóstico, tem um peso enorme na decisão do tratamento e no prognóstico”, explica.
No caso de Bruna, o tumor apresenta receptores hormonais positivos e ausência da proteína HER2.
Isso significa que o crescimento das células cancerígenas é estimulado por hormônios como estrogênio e progesterona, e que não há superexpressão do HER2 –uma proteína associada a tumores de crescimento mais acelerado. Ainda assim, a presença de metástases indica uma doença biologicamente mais agressiva.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/c/z/e8EMpSQGeuV6bfwpGRWQ/ainda-ta-podendo-postar-foto-do-ano-novo.jpg)
Quais são os principais subtipos de câncer de mama
Para definir o tratamento, os médicos analisam marcadores do tumor em exames de imuno-histoquímica. Segundo Stephen Stefani, essa avaliação inclui três receptores principais —estrogênio, progesterona e HER2—, cuja combinação permite classificar a doença em grandes grupos biológicos.
Esses subtipos ajudam a orientar a escolha das terapias, mas não determinam sozinhos o prognóstico. “O comportamento do câncer é resultado de um conjunto de fatores. Não existe uma característica isolada que defina como a doença vai evoluir”, explica o médico.
De forma geral, os principais subtipos são:
- Luminal A. Tumores com receptores hormonais positivos (estrogênio e progesterona), HER2 negativo e baixa taxa de proliferação celular (Ki-67 baixo). Costumam crescer mais lentamente, responder bem ao bloqueio hormonal e, em média, têm melhor prognóstico.
- Luminal B. Também apresentam receptores hormonais positivos e HER2 negativo, mas com maior taxa de proliferação celular. Têm comportamento mais agressivo do que o luminal A e, em alguns casos, exigem associação de quimioterapia ao tratamento hormonal.
- HER2 positivo. Se caracterizam pela superexpressão da proteína HER2, que estimula intensamente a multiplicação das células tumorais. Antes das terapias-alvo, eram associados a pior prognóstico. Hoje, medicamentos específicos ampliaram significativamente o controle da doença.
- Triplo negativo. Não expressam receptores hormonais nem HER2. Costumam ter evolução mais agressiva e imprevisível. O tratamento se baseia principalmente em quimioterapia e imunoterapia. É o subtipo mais frequentemente associado a pacientes jovens e a mutações genéticas hereditárias —embora não esteja presente em todos os casos nessa faixa etária.
No caso de Bruna Furlan, foram divulgadas informações sobre a presença de receptores hormonais e a ausência de HER2, mas não foi informado se o tumor se enquadra no grupo luminal A ou luminal B, classificação que depende também da taxa de proliferação celular.
Além disso, o especialista afirma que, independentemente do subtipo, o fato de a doença já ser metastática no momento do diagnóstico tem peso central na definição do tratamento e do prognóstico.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/P/Z/jimHicQHiafmTwy18gOA/get.jpg)
O impacto da idade no diagnóstico
Outro ponto que chama atenção no caso é a idade da paciente. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 75 mil novos casos de câncer de mama por ano. Apenas 7% a 10% ocorrem em mulheres com menos de 40 anos.
“Quando uma paciente é muito jovem, isso acende um alerta para a possibilidade de mutações genéticas hereditárias, como as dos genes BRCA1 e BRCA2”, afirma Stefani. Essas alterações estão mais frequentemente associadas ao câncer de mama em idades precoces, embora não expliquem todos os casos.
“Não existe uma característica isolada que determine o comportamento da doença”, reforça.
Em mulheres jovens, o diagnóstico também enfrenta desafios técnicos. As mamas tendem a ser mais densas, o que reduz a sensibilidade da mamografia.
“O problema não é que a mamografia não seja indicada porque não exista risco, mas porque ela não é um bom exame nessa faixa etária”, explica o oncologista. Mesmo o ultrassom pode falhar em detectar lesões iniciais, o que dificulta o rastreamento precoce.
Como o tratamento é definido
A definição do tratamento leva em conta um conjunto de fatores, que vai além da classificação do tumor em subtipos. A avaliação inclui os marcadores analisados na imuno-histoquímica, mas também considera a extensão da doença no momento do diagnóstico, a velocidade de crescimento do tumor e as características clínicas da paciente.
Ainda de acordo com o oncologista, tumores com expressão de receptores hormonais, como o de Bruna, permitem o uso do bloqueio hormonal como uma das principais estratégias terapêuticas.
Esse tipo de tratamento atua “fechando as portas” pelas quais os hormônios estimulam o crescimento das células tumorais e pode ser usado sozinho ou combinado a outras abordagens.
Nos últimos anos, o arsenal contra o câncer de mama hormonal positivo se ampliou com medicamentos mais modernos, como os inibidores de ciclinas (CDK4/6), que atuam diretamente no ciclo de divisão celular e ajudam a retardar a progressão da doença.
Dependendo do comportamento do tumor, a quimioterapia também pode ser indicada, sobretudo quando é necessária uma resposta mais rápida.
Quando a doença é metastática, a depender do local das metástases, o foco do tratamento deixa de ser a cura e passa a ser o controle da doença ao longo do tempo.
“Há situações em que o câncer de mama metastático pode ser tratado como uma condição crônica, com pacientes vivendo por muitos anos com a doença controlada”, afirma Stefani. Ainda assim, o médico ressalta que o manejo é sempre individualizado e depende da resposta ao tratamento ao longo do acompanhamento.
Ao tornar público o diagnóstico, Bruna disse esperar que seu relato ajude outras mulheres a se sentirem menos sozinhas. “Vai ser uma longa jornada de exames, tratamentos e aprendizados”, afirmou.


