Por que pessoas jovens infartam?


Durante muito tempo, o infarto foi a doença do “senhor de meia-idade”: sedentário, fumante, hipertenso. Uma imagem clássica, quase caricata. Mas isso perdeu o foco e já não explica o que vemos hoje nas emergências e UTIs.

Hoje, o novo rosto do ataque cardíaco pode ser o jovem de 30 ou 40 anos, aparentemente saudável, que posta o treino do dia no Instagram, mas vive sob o chicote de metas inatingíveis, dorme pouco e trabalha demais. O coração não acompanha a estética das redes sociais.

Nos últimos anos, a ciência acendeu o alerta: o aumento de infartos em adultos jovens não é mais uma exceção estatística, é uma mudança de cenário silenciosa e perigosa. Um fenômeno observado em diferentes países, contextos sociais e sistemas de saúde. Ela desmonta aquela falsa sensação de invulnerabilidade que a juventude nos dá. O problema é que o músculo cardíaco não lê o seu documento de identidade; ele responde, segundo a segundo, ao que você faz com o seu corpo.

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A maioria dos infartos em jovens está ligada a fatores de risco modificáveis. Tabagismo, obesidade, hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes tipo 2 e sedentarismo. São fatores conhecidos, antigos, mas cada vez mais presentes em idades precoces. O que muda é o peso de um agravante moderno, que os estudos vêm apontando com cada vez mais força: o abuso de substâncias. O impacto da cocaína, o uso pesado de cannabis, o excesso de energéticos e o consumo de esteroides anabolizantes formam hoje um eixo central de risco cardiovascular.

Esses fatores, quando surgem cedo, não dão tempo para o organismo “se adaptar”. O resultado é um processo aterosclerótico mais precoce, mais inflamatório e, muitas vezes, mais instável. O que antes levava décadas para se manifestar, agora se antecipa em silêncio.

A genética também pesa. História familiar de infarto precoce e alterações como níveis elevados de lipoproteína(a) aumentam o risco cardiovascular mesmo em jovens que se sentem bem. Genética não é destino, mas é como começar a corrida alguns metros atrás. Nesses casos, o preço do descuido costuma ser mais alto.

O infarto do jovem tem outra lógica. Enquanto no idoso o problema costuma ser o acúmulo lento de placas ao longo dos anos, no jovem predomina a instabilidade. São artérias que não parecem gravemente obstruídas, mas que escondem placas frágeis, capazes de se romper de forma súbita. Não é a quantidade de placas que assusta, é o comportamento delas.

O exame muitas vezes surpreende: poucas obstruções visíveis, nenhuma história longa de doença, e ainda assim um evento agudo, intenso, explosivo. É menos um processo de desgaste progressivo e mais um colapso abrupto. O coração jovem não avisa aos poucos. Ele falha de uma vez. E, quando falha, costuma fazê-lo de maneira dramática.

O estresse crônico deixou de ser apenas um estado emocional e passou a atuar como fator biológico mensurável. Aumenta cortisol, inflama o endotélio, eleva a pressão arterial, piora o metabolismo da glicose e favorece a instabilidade das placas coronarianas. O estresse virou terreno fértil para a doença cardiovascular. Eventos de vida adversos, jornadas exaustivas, privação de sono e baixo suporte social aparecem de forma consistente associados ao infarto em jovens. A normalização do cansaço permanente cobra um preço alto.

Talvez o maior erro seja acreditar que juventude protege. Ela não protege. Ela apenas adia a conta. Quando os fatores de risco se acumulam cedo, o relógio biológico do coração anda mais rápido. E o tempo perdido não se recupera. A literatura científica é clara ao apontar o caminho: identificar precocemente, tratar agressivamente os fatores de risco e abandonar a ideia de que prevenção cardiovascular começa tarde.

Fonte: Jornal O Globo. 

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