Com mais de 900 mil alunos com TEA matriculados na educação básica no Brasil, o debate se desloca do acesso para a qualidade

Com a volta às aulas em 2026 prevista para o início de fevereiro, muitas famílias vivem o desafio de preparar as crianças para o retorno à rotina escolar. Para pais e responsáveis de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse momento costuma exigir atenção redobrada, planejamento e diálogo constante com a escola para garantir uma adaptação mais segura e acolhedora.
O Resumo Técnico do Censo Escolar 2024 do INEP, divulgado em 2025, registrou um salto de 44,4% nas matrículas de alunos com TEA, de cerca de 636 mil em 2023 para aproximadamente 900 mil em 2024. Embora o número represente avanço no acesso, ele expõe uma questão estrutural: a inclusão formal não garante, por si só, desenvolvimento significativo. A legislação brasileira prevê um sistema educacional inclusivo, mas a implementação efetiva ainda depende de capacitação técnica, adaptações baseadas em evidência e monitoramento contínuo de resultados.
“A escola é um espaço que proporciona desenvolvimento cognitivo, comunicação e convívio social, elementos fundamentais para uma pessoa autista. Construir um ambiente acolhedor e adaptado exige a colaboração de todos os envolvidos.”, afirma a Psicóloga Julia Amed, da Genial Care. Ela ainda destaca a importância de buscar uma escola com profissionais capacitados e de manter uma comunicação constante entre família e instituição.
Da matrícula à inclusão: o que os dados revelam
Em 2024, o Censo Escolar do INEP registrou 918.877 matrículas de crianças e adolescentes com TEA na educação básica. Desse total, 95,7% dos alunos na faixa etária de 4 a 17 anos estão em classes comuns. Os dados indicam um avanço importante na presença desses estudantes na rede regular de ensino, mas também reforçam o desafio de transformar esse acesso em experiências educacionais que promovam desenvolvimento real, com progressos concretos em autonomia, comunicação e interação social.
A inclusão verdadeira pressupõe que as instituições de ensino disponham de recursos técnicos, profissionais capacitados e modelos de acompanhamento baseados em evidência. Os professores são agentes-chave nesse processo, necessitando de formação especializada para compreender as particularidades do TEA.
“É importante que os educadores participem de treinamentos, cursos e tenham acesso a especialistas para lidar com os desafios e potencialidades de alunos autistas”, enfatiza Julia Amed. Adaptações no currículo, como materiais visuais, uso de tecnologias para suporte ao educador e ajustes nas avaliações, também são importantes para atender às necessidades individuais.
Como apoiar a adaptação de crianças autistas na escola?
O acolhimento de crianças no espectro em escolas regulares é um processo que exige cuidado, adaptações e suporte, no entanto, mais do que garantir a presença física da criança na escola, o verdadeiro desafio da inclusão é promover autonomia. Isso significa que o sucesso não está apenas em quantas horas a criança passa em sala de aula, mas em sua capacidade de participar de forma independente das atividades, comunicar suas necessidades e construir relações sociais significativas.
Quando a escola se estrutura para desenvolver essas habilidades, e não apenas acomodar a criança, o ambiente escolar se torna um espaço de desenvolvimento real, mensurável e sustentável. Nesse contexto, confira a seguir 8 dicas que podem tornar essa integração mais confortável e eficiente.
1) Conheça a escola antes do início das aulas: visitar à nova escola com a criança é importante porque permite que ela se familiarize com o ambiente, conheça os espaços (como sala de aula, banheiro e refeitório) e, se possível, interaja com os professores e colegas. Essa prática ajuda a reduzir a ansiedade e a criar um senso de segurança.
2) Crie uma rotina previsível: crianças autistas podem se sentir mais seguras quando sabem o que esperar do dia a dia. Antes do início das aulas, organize uma sequência de horários semelhante à que será adotada no período escolar, contemplando momentos para acordar, lanchar e realizar atividades. Essa antecipação contribui para uma transição mais tranquila para o novo ritmo.
3) Compartilhe informações com a equipe escolar: forneça à escola informações detalhadas sobre as necessidades da criança, incluindo gatilhos sensoriais, estratégias de comunicação eficazes e possíveis formas de acalmar a criança em situações de estresse. Essa comunicação aberta é essencial para a equipe escolar estar preparada para oferecer o suporte adequado.
4) Utilize recursos visuais para deixar a criança ciente sobre a escola: itens como calendários, tabelas de horários e cartões com ilustrações, podem ajudar a criança a compreender melhor o que esperar durante o dia. Esses recursos são especialmente úteis para crianças com dificuldade em processar informações verbais.
5) Prepare a criança para o que ela vai vivenciar: converse com o pequeno(a) sobre o que ela encontrará na escola. Explique, de forma clara e simples, como será o ambiente, quem estará lá e o que ela fará ao longo do dia. Usar histórias sociais ou livros que abordem a temática escolar também pode ajudar.
6) Estimule o interesse da criança e use o brincar como ferramenta científica: temas de interesses específicos e objetos de hiperfoco podem ser aproveitados para garantir a motivação e o engajamento da criança nas atividades acadêmicas. Os pais podem inserir esses temas, além de compartilhar com os professores para que eles possam ser usados em sala de aula.
Um dos diferenciais dos modelos modernos de intervenção é o uso do brincar como método clínico estruturado. Por meio da ludicidade, cada atividade é planejada com objetivos mensuráveis, permitindo que a criança aprenda de forma natural e prazerosa. Pesquisas sobre Intervenção Naturalista de Desenvolvimento Comportamental (NDBI), publicadas no Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology, demonstram que abordagens baseadas no brincar e em contextos naturais promovem melhor a generalização de habilidades, ou seja, a criança consegue usar o que aprendeu em diferentes situações da vida real.
7) Incentive atividades em grupo: elas são muito importantes para promover a interação e socialização da criança. Sempre que possível, realize tarefas, atividades, brincadeiras e jogos em grupo, mas sempre respeitando o tempo da criança e com muita atenção à reação dela nesses momentos.
8) Envolva toda a comunidade escolar: a inclusão não é responsabilidade apenas do professor regente. Garanta que toda a equipe, incluindo coordenadores, auxiliares e funcionários, esteja ciente das necessidades da criança e seja capacitada para lidar com situações específicas relacionadas ao TEA.
A escola é um espaço vital para o desenvolvimento de qualquer criança. No caso das crianças neurodivergentes, a inclusão vai além do direito garantido em lei: quando bem estruturada, ela se torna uma estratégia com efeitos clínicos concretos, favorecendo a autonomia, a comunicação e a socialização, com impactos diretos na qualidade de vida ao longo do tempo.


