O pai de Johann Wolfgang Von Goethe decidiu abandonar seu título de conselheiro imperial para se dedicar à educação de seus filhos, com o objetivo de não perder nem um minuto. Talvez por isso seu famoso filho considerasse que “o caráter se forma nas tempestades, não nos dias ensolarados”. Uma citação que volta a fazer sentido em uma cena doméstica que se repete diariamente: uma criança entediada e um adulto correndo para resolver o problema; um adolescente frustrado e uma família se esforçando para evitar a raiva. Na educação contemporânea, o desconforto infantil se tornou um tabu, algo que deve ser eliminado antes que incomode, antes que doa, antes que faça barulho.
A cultura do bem-estar imediato fez sua parte. Telas que entretêm instantaneamente, aplicativos que prometem respostas sem demora, adultos hiperdisponíveis que antecipam cada tropeço, lágrima ou discussão. De acordo com um estudo da Universidade de Michigan sobre estilos parentais e regulação emocional, 62% dos pais reconhecem intervir rapidamente para evitar que seus filhos “passem mal”, mesmo quando se trata de situações cotidianas, como perder um jogo ou esperar sua vez. O problema surge quando essa lógica de proteção permanente começa a moldar expectativas irreais: que o mundo sempre se adapte, que o desejo não encontre obstáculos, que o erro seja uma anomalia.
— Muitas vezes confundimos amor com superproteção e, ao fazer isso, impedimos que as crianças desenvolvam mecanismos básicos de regulação emocional. A tolerância à frustração não surge espontaneamente; ela é treinada como qualquer músculo psicológico, com exposição progressiva e acompanhada. Evitá-la sistematicamente não fortalece, enfraquece — explica a psicóloga Silvia Álava Sordo.
A mudança geracional ajuda a compreender o fenômeno. Pais e mães influenciados por discursos sobre educação respeitosa, muitas vezes mal compreendidos, sentem-se culpados diante do tédio, da espera ou do conflito de seus filhos.
— Procuramos que eles sejam felizes a todo custo, sem frustração, sem esforço, sem sofrimento, e acabamos criando crianças com baixíssima tolerância à frustração e altíssima insatisfação — acrescenta a psicóloga Maritchú Seitún, especializada em acompanhamento familiar.
Os dados começam a mostrar as consequências. Uma pesquisa da Universidade Complutense de Madri sobre adolescentes e controle emocional aponta que aqueles que cresceram com poucas oportunidades de enfrentar a frustração apresentam um risco 45% maior de desenvolver sintomas de ansiedade diante de situações extremas ou de fracasso. A frustração, longe de ser um obstáculo ao desenvolvimento, aparece assim como um insumo evolutivo, uma experiência necessária para aprender a esperar, a negociar, a perseverar.
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A licenciada Mariana de Anquin, especialista em criação e educação emocional, traz uma visão que muda o foco:
— O problema não é a frustração das crianças, é a nossa reação diante dela. Resgatar muito rapidamente ou exigir silêncio emocional são duas faces da mesma dificuldade adulta em tolerar o mal-estar infantil. Entre esses extremos, existe uma terceira via: acompanhar sem anular, apoiar sem resgatar, permitir que a emoção seja processada com um adulto disponível.
Em tempos em que o conforto se tornou um valor supremo, o desconforto parece uma falha do sistema. No entanto, as evidências mostram o contrário: evitar a frustração enfraquece. Ensinar a perder, a ficar entediado e a não estar certo predispõe a enfrentar o que acontecer, porque nesse território desconfortável são construídas habilidades que nenhum atalho tecnológico pode substituir.
O custo invisível
Juan M., 42 anos, separado, pai de duas meninas de 8 e 14 anos, acreditou por muito tempo que protegê-las era evitar qualquer problema. Ele resolvia tarefas, apressava soluções, preenchia os silêncios com distrações. Um dia, exausto por questões de trabalho, diante de um conflito, ele não teve forças para intervir como sempre fazia. Sua filha mais nova chorou por um problema mínimo. Ela não conseguia lidar com isso e ele também não. A pequena o surpreendeu: na ausência dele, ela superou a raiva, procurou sozinha e resolveu o problema. Esse episódio mostrou a ele que, ao tentar poupá-las do desconforto, ele estava tirando delas a oportunidade de descobrir que podiam tolerá-lo.
A cena é cotidiana e quase invisível: uma criança fica frustrada com um jogo que não consegue jogar, um adulto se apressa em intervir, muda as regras, propõe outra atividade, oferece uma tela. O gesto parece amoroso, até empático, mas nessa microdecisão está em jogo algo mais profundo. Cada vez que se apaga a experiência da frustração, também se anula a possibilidade de aprender a superá-la.
De acordo com uma pesquisa da Universidade de Minnesota sobre desenvolvimento socioemocional, crianças que têm oportunidades regulares de enfrentar pequenos fracassos acompanhadas por adultos demonstram, na adolescência, 37% mais capacidade de regular emoções intensas do que aquelas criadas em ambientes de proteção constante.
— A resiliência não se ensina evitando as dificuldades, ela se constrói enfrentando-as com apoio — afirma a psicóloga Ann Masten, principal autora do estudo.
Em contrapartida, o modelo de criação hiperprotetora se baseia em uma boa intenção que acaba produzindo um efeito paradoxal. Uma pesquisa do Centro de Estudos sobre a Infância da Universidade de Oxford revelou que 58% dos pais admitem intervir imediatamente quando seus filhos ficam frustrados, mesmo em situações menores. Para a psicóloga infantil Sarah Thompson, responsável pelo relatório, esse reflexo responde mais ao desconforto adulto do que ao da criança: “Não toleramos ver nossos filhos sofrerem porque isso nos conecta com nossas próprias frustrações não resolvidas”.
Nesse contexto, a decepção se torna algo que deve ser erradicado, em vez de compreendido. No entanto, a neurociência afetiva sabe que os circuitos cerebrais que permitem tolerar a demora e processar a desilusão se fortalecem precisamente quando são exercitados. Um estudo da Universidade de Toronto mostrou que as crianças que aprendem a esperar e a perder desenvolvem 42% mais ativação nas áreas pré-frontais ligadas à tomada de decisões e à regulação emocional. Seu autor, o neuropsicólogo Michael Anderson, resume: “O cérebro precisa treinar-se no desconforto para aprender a escolher melhor”.
— Quando evitamos que as crianças fiquem frustradas, tiramos delas a oportunidade de aprender a conviver com emoções desagradáveis que são necessárias para sua saúde mental — continua Álava Sordo.
A cultura do bem-estar permanente instala uma fantasia perigosa: a ideia de que sentir desconforto é um erro e não uma parte inevitável da vida.
Educar para a frustração não significa endurecer ou ignorar, mas acompanhar sem anestesiar. Implica sustentar a raiva sem resolvê-la imediatamente, ouvir a reclamação sem correr para abafá-la, permitir que o tempo faça seu trabalho.
— Como adulta, ensino a lidar com a ansiedade e a agressividade por meio de um limite ou uma regra; acompanho ativamente esse tempo, sem resolver, mas conduzindo a atitude — afirma a psicóloga Rocío Ramos Paul.
Nesse espaço, que no início incomoda mais os adultos do que as crianças, surge uma competição invisível, mas decisiva: a capacidade de não desmoronar diante do que não sai como esperado. Porque a vida, mais cedo ou mais tarde, se encarrega de frustrar. A questão não é se isso vai acontecer, mas com quais ferramentas emocionais eles vão se deparar quando isso acontecer.
Uma ferramenta poderosa
Martina C, mãe de três crianças de 3, 9 e 11 anos, costumava intervir ao menor sinal de um contratempo:
— Eu queria evitar o agravamento das dificuldades. Se um se descontrola, os outros se contaminam — conta.
Quando o mais velho ficava irritado com o dever de casa, ela se sentava para fazê-lo com ele; se a de 9 anos perdia em um jogo, ela mudava as regras; se o mais novo chorava por ter que esperar, aparecia uma tela como anestesia expressa. Tudo parecia funcionar, mas a um custo muito alto de seu próprio estresse. Em algum momento, ela percebeu que as explosões estavam ficando cada vez mais intensas. Um dia, ela decidiu tentar outra coisa: ficar por perto sem resolver, nomear o que estava acontecendo e suportar o desconforto. A mudança foi lenta, mas visível. “Menos gritos, mais tentativas, mais pedidos de ajuda sem desespero”, conta ela.
A experiência de Martina reflete uma mudança silenciosa que atravessa muitas famílias. O tédio começou a ser visto como um inimigo, algo que precisava ser erradicado com atividades, telas ou estímulos constantes. No entanto, na educação contemporânea, ele começa a se revelar como uma ferramenta poderosa, uma espécie de ginásio emocional onde as crianças aprendem a tolerar o vazio, a lidar com a espera e a descobrir seus próprios recursos.
Um estudo da Universidade de East Anglia sobre criatividade e regulação emocional mostrou que crianças que passam por momentos de tédio sem intervenção desenvolvem 33% mais capacidade de gerar soluções espontâneas diante de situações frustrantes. A psicóloga Sandi Mann, principal autora da pesquisa, afirma que “o tédio não é uma falha do sistema, é um espaço fértil onde a mente aprende a se mover sem muletas externas”.
Na vida cotidiana, a intenção é evitar o desconforto, mas a mensagem implícita é outra: você não está preparado para sustentar esse estado; alguém mais deve resolvê-lo por você.
— Esse reflexo é compreensível, mas caro — indica Álava Sordo — Quando intervimos muito rapidamente para evitar emoções desagradáveis, impedimos que aprendam a conviver com elas e a desenvolver estratégias para regulá-las.
A neurociência sabe que a capacidade de tolerar a inatividade está diretamente ligada ao desenvolvimento do autocontrole. Uma pesquisa da Universidade de Yale sobre funções executivas na infância revelou que crianças que têm espaços de tempo não estruturados apresentam 29% mais flexibilidade cognitiva e melhor regulação de impulsos.
— A mente precisa de momentos de baixa estimulação para se reorganizar e fortalecer seus sistemas de autorregulação — afirma o neurocientista Bruce McEwen, responsável pela pesquisa.
Seitún costuma dizer que o tédio cumpre uma função pedagógica silenciosa.
— Quando uma criança fica entediada e não a resgatamos imediatamente, ela aprende algo fundamental: que pode ficar sozinha sem depender o tempo todo dos outros. Essa experiência, tão simples quanto poderosa, estabelece as bases da autonomia emocional, uma das competências mais frágeis em uma época de gratificação imediata — conta.
A partir da educação emocional, Anquin traz uma chave complementar: “A frustração não é eliminada, aprende-se a atravessá-la com um adulto disponível”. Ficar por perto sem resolver permite que o desconforto se transforme em aprendizado e não em solidão emocional. Os dados acompanham essa intuição clínica. Um relatório do Instituto Max Planck de Desenvolvimento Humano, em Berlim, mostrou que crianças expostas a momentos de lazer não direcionado apresentam 41% mais tolerância à frustração na adolescência, especialmente diante de situações de espera, perda ou erro.
— A capacidade de suportar estados desconfortáveis é construída nesses momentos em que nada acontece e, no entanto, tudo acontece — explica seu diretor e psicólogo, Peter Gollwitzer.
Reavaliar o tédio implica confiar que cada criança pode atravessar esse vazio sem que seja perigoso, que desse desconforto surgirão recursos inesperados. Em um mundo que corre para preencher cada silêncio, deixar o tédio existir torna-se um gesto contracultural e educativo.
Sem anestesia
Renata R é mãe de dois meninos de 12 e 16 anos e vive um conflito permanente com seu ex-parceiro. Enquanto ela tenta manter limites, expectativas e consequências, o pai responde rapidamente, intervém para evitar brigas e recorre sistematicamente às telas como “chupeta” para os adolescentes. A tensão explodiu quando o mais velho abandonou um torneio porque não queria continuar perdendo e o pai o retirou imediatamente; Renata insistia que ficar também era aprender. Diante dos meninos, as posições opostas tornaram-se visíveis. No meio da discussão adulta, sem querer, os filhos aprendiam que sempre havia uma saída para evitar o desconforto. Nunca antes foi tão fácil acalmar uma emoção desconfortável com um gesto mínimo. Um clique é suficiente para distrair, entreter, anestesiar. Na infância e na adolescência, essa disponibilidade permanente de estímulos mudou a relação com a espera e com o esforço e, acima de tudo, com o que não sai como se espera. O verdadeiro desafio é ensinar a tolerar que nem sempre tudo é imediato, nem possível.
Uma pesquisa da Universidade da Califórnia em San Diego analisou o impacto do uso intensivo de telas em crianças de 6 a 12 anos e descobriu que aquelas que passavam mais de quatro horas por dia diante de dispositivos apresentavam 37% mais dificuldades para realizar tarefas que exigiam paciência e autorregulação emocional.
— A superestimulação digital treina o cérebro para a recompensa instantânea e enfraquece os circuitos que permitem tolerar a demora — afirma o neurocientista Adam Gazzaley, principal autor do estudo.
A frustração, nesse contexto, torna-se um estado cada vez menos praticado. Não porque haja menos motivos para senti-la, mas porque ela é rapidamente evitada. O problema não é a tecnologia em si, mas a ausência de espaços onde se possa aprender a atravessar emoções sem anestesia. Reeducar a espera torna-se, então, uma tarefa urgente. Não a partir da proibição rígida, mas da criação de espaços onde o tempo não seja colonizado por telas. Momentos de brincadeiras livres, de conversas sem interrupções, de atividades que envolvam processo e não apenas resultado. Essa permanência incômoda forja algo maior do que a paciência; constrói a capacidade de confiar que nem todo mal-estar precisa de uma saída imediata.
10 dicas para lidar com a frustração nas crianças
1. Permitir que sintam a frustração
— Tenho que permitir que você sinta, por um lado, essa frustração e, depois, vou lhe ensinar técnicas para que você possa controlá-la — afirma Álava Sordo, que deve ser explicado às crianças.
2. Reconhecer o valor evolutivo da dor
— A tolerância à frustração não se ensina por decreto, ela se constrói no dia a dia e começa com pequenas coisas — afirma Anquin.
3. Não intervir antes do tempo
— Quando os adultos agem muito rapidamente para evitar emoções desagradáveis, estamos impedindo coisas que são extremamente importantes para sua saúde mental — sugere Álava Sordo.
4. Acompanhar sem neutralizar
— Primeiro validamos a emoção, depois descrevemos o problema e, se necessário, dividimos a tarefa em pequenos passos, modelando como fazê-la e fazendo-a com ele” — enumera de Anquin.
5. Estabeleça limites claros com consequências
— Se eu estabelecer um limite e houver consequências caso ele seja ultrapassado, eu o responsabilizo pelo seu comportamento — propõe Ramos Paul.
6. Crie oportunidades de frustração cotidianas
— A vida cotidiana nos dá inúmeras oportunidades de acompanhar nossos filhos a esperar, a se adaptar, a tolerar a dor do que eles não podem ou não devem fazer — indica Seitún.
7. Ensinar ferramentas de autorregulação
— Como adulto, ensino a lidar com a ansiedade e a agressividade por meio de um limite ou uma regra — diz Ramos Paúl.
8. Respeitar o processo e não apressar o resultado
— Aprender que é possível atravessar emoções desconfortáveis sem perder o vínculo, fortalecer a confiança interna e a capacidade de enfrentamento leva tempo — indica de Anquin.
9. Diferenciar acompanhar de resgatar
— Não é a frustração que transborda as crianças, mas a solidão para atravessá-la — continua de Anquin.
10. Praticar a paciência e a exposição progressiva
— A frustração se treina como se treina um idioma: com exposição progressiva e acompanhada — conclui Seitún.


