Especialista alerta que oito em cada dez crianças com excesso de peso se tornarão adultos obesos se não houver intervenção precoce. Mudanças na alimentação, atividade física, sono e apoio familiar são fundamentais para reverter o quadro.
Por muito tempo, a imagem de uma criança gordinha esteve associada à saúde e ao bem-estar. Em muitas famílias, o excesso de peso ainda é interpretado como sinal de que a criança está crescendo forte e bem alimentada. No entanto, a ciência mostra uma realidade bem diferente: a obesidade infantil é uma doença crônica que pode trazer consequências graves ainda na infância e acompanhar o indivíduo por toda a vida.
No Dia de Conscientização da Obesidade Infantil, celebrado em 3 de junho, especialistas reforçam a necessidade de olhar para o problema sem preconceitos, mas também sem minimizar seus impactos. Dados internacionais mostram que hoje existem mais crianças com obesidade no mundo do que crianças desnutridas, um cenário que acende o alerta para famílias, escolas e profissionais de saúde.
Segundo a endocrinopediatra Dra. Taísa Macedo, o problema pode começar muito antes dos primeiros anos de vida.
“A obesidade infantil muitas vezes começa ainda na gestação. O excesso de peso materno influencia o metabolismo da criança e aumenta o risco de ela desenvolver obesidade ao longo da vida”, explica.
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A médica destaca que fatores genéticos e ambientais caminham juntos. Alimentação inadequada, sedentarismo e excesso de produtos ultraprocessados ajudam a construir um ambiente favorável ao ganho excessivo de peso desde cedo.
Uma doença que vai além da estética
A obesidade infantil não é apenas uma questão visual. Entre as consequências imediatas estão dificuldades emocionais, baixa autoestima, bullying e problemas ortopédicos provocados pela sobrecarga nas articulações.
Mas os riscos não param por aí.
Doenças antes associadas exclusivamente aos adultos já aparecem com frequência crescente em crianças e adolescentes. Diabetes tipo 2, colesterol elevado, hipertensão arterial e alterações metabólicas são algumas delas.
“O que vemos hoje é algo que não existia décadas atrás: crianças desenvolvendo diabetes tipo 2. E, quando isso acontece na infância, a evolução costuma ser mais agressiva do que nos adultos”, alerta a especialista.
Uma crença comum entre os pais é a expectativa de que o crescimento resolva naturalmente o excesso de peso.
A realidade é diferente.
Estudos mostram que cerca de 80% das crianças com obesidade permanecerão com excesso de peso na vida adulta se não houver intervenção adequada.
Por isso, especialistas defendem que o acompanhamento deve começar o mais cedo possível, observando curvas de crescimento, peso, altura e Índice de Massa Corporal (IMC) adaptados para a idade.

Movimento, hidratação e brincadeiras ao ar livre ajudam a construir hábitos saudáveis.

Telas em excesso reduzem a atividade física e prejudicam o sono.
O papel da família é decisivo
Ao contrário do que muitos imaginam, o tratamento da obesidade infantil não depende apenas da criança.
A mudança precisa envolver toda a família.
Afinal, são os adultos que compram os alimentos, definem horários, estimulam atividades físicas e estabelecem rotinas de sono.
“Esperar que a criança mude sozinha é praticamente impossível. O tratamento funciona quando pais, avós e cuidadores participam do processo”, afirma Dra. Taísa.
Nesse contexto, três pilares são considerados fundamentais:
- Alimentação equilibrada e redução de ultraprocessados;
- Prática regular de atividade física;
- Sono adequado e redução do tempo de tela.
Dormir bem também ajuda a controlar o peso
Um aspecto frequentemente negligenciado é a qualidade do sono.
Pesquisas demonstram que dormir pouco altera hormônios relacionados à saciedade e à fome, aumentando a procura por alimentos ricos em açúcar e gordura no dia seguinte.
Além disso, o uso excessivo de celulares, tablets e videogames contribui tanto para o sedentarismo quanto para a dificuldade de dormir.
Medicamentos: uma nova ferramenta no tratamento
Nos últimos anos, medicamentos conhecidos popularmente como “canetas para emagrecimento” passaram a integrar o tratamento da obesidade em adolescentes, representando um avanço importante no combate à doença.
Entre os medicamentos aprovados para obesidade em pacientes a partir dos 12 anos estão a liraglutida e a semaglutida, sempre com indicação e acompanhamento médico especializado.
Outra medicação que vem ganhando destaque é a tirzepatida. Atualmente, ela está aprovada para o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes a partir dos 12 anos, mas ainda não possui liberação específica para obesidade na população pediátrica. Especialistas acreditam que, futuramente, a medicação poderá seguir o mesmo caminho da liraglutida e da semaglutida, que inicialmente foram aprovadas para diabetes e, posteriormente, para obesidade.
Apesar dos resultados promissores, a endocrinopediatra Dra. Taísa Macedo reforça que nenhum medicamento substitui hábitos saudáveis.
“A base do tratamento continua sendo alimentação equilibrada, atividade física regular e sono de qualidade. Os medicamentos são ferramentas importantes, mas não funcionam isoladamente.”
Segundo a especialista, o uso dessas medicações deve ser individualizado, acompanhado de perto por profissionais habilitados e inserido dentro de uma estratégia ampla de cuidado, envolvendo médicos, nutricionistas, psicólogos e a participação ativa da família.
Um ato de amor
Para a médica, combater a obesidade infantil passa por uma mudança de olhar.
Dizer não ao excesso de doces, limitar o tempo de tela, incentivar atividades físicas e buscar ajuda profissional quando necessário são atitudes que representam cuidado e proteção.
“Acompanhar o filho, orientar e participar desse processo é um ato de amor. Quanto mais cedo o tratamento começa, maiores são as chances de evitar doenças graves no futuro.”
A mensagem é clara: obesidade infantil não é fase, nem característica estética. É uma condição de saúde que merece atenção, acolhimento e tratamento adequado para garantir um futuro mais saudável para crianças e adolescentes.

Dra. Taísa Macedo, endocrinologista pediatra.


