Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 10% dos casos de câncer em todo o mundo podem estar associados a infecções prolongadas por vírus ou bactérias. Entre os principais agentes estão o papilomavírus humano (HPV), o Epstein-Barr, os vírus das hepatites B e C e a bactéria Helicobacter pylori.
No câncer de colo do útero — ou câncer cervical —, o HPV está relacionado à maioria dos casos. Já o carcinoma hepatocelular, tipo comum de câncer primário do fígado, está associado ao vírus da hepatite B.
Entre os métodos que previnem esses tumores, as vacinas ocupam um lugar de destaque. Elas estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) de forma gratuita e nas redes particulares.
A oncologista Letícia Leis, especializada em câncer ginecológico, da Oncologia D’Or de São Paulo, reforça que: “Esses imunizantes são seguros, altamente eficazes e fazem parte do Calendário Nacional de Vacinação do SUS”.

Esses vírus favorecem o surgimento de tumores por meio de inflamações crônicas, enfraquecimento do sistema imune e alterações do controle celular.
O HPV está ligado também a tumores no canal anal, na vulva, na vagina, no pênis, na orofaringe, na base da língua, nas amígdalas e na parte posterior da garganta.
Gabrielle Scattolin, oncologista da Rede Américas e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), alerta que há um crescimento nos números dos diagnósticos desse câncer.
“Os tumores relacionados às infecções virais podem estar associados especialmente às falhas na vacinação e no rastreamento. Fica muito claro que, no caso do câncer de colo de útero, há maior incidência em locais que têm menor cobertura vacinal”, complementa.
Imunização contra HPV reduz casos dos cânceres
Existem mais de 200 tipos de HPV classificados em grupos de baixo e alto risco. Entre os de alto risco, os tipos 16 e 18 correspondem a cerca de 70% das incidências de câncer de colo do útero.
Um estudo brasileiro publicado em 2025 analisou diagnósticos entre 2019 e 2023 em jovens de 20 a 24 anos. Os resultados mostraram que a vacina reduziu em 58% os casos de câncer cervical e em 67% as lesões pré-cancerosas graves.
No SUS, com a implantação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2014, o esquema vacinal passou a oferecer dose única do imunizante para meninas e meninos de 9 a 14 anos, com resgate para não vacinados de 15 a 19 anos. Pessoas imunodeprimidas ou em grupos prioritários têm direito até os 45 anos. Já na rede privada, a vacina está disponível dos 9 aos 45 anos.
Por anos, a rede pública utilizou o exame de Papanicolau como principal rastreador do câncer cervical. Mas, em 2024, o SUS incluiu o teste de DNA-HPV oncogênico. Em 2025, as diretrizes adotaram o teste como método primário.
Porém, o Papanicolau continua sendo utilizado. “É importante destacar que a coleta não substitui o exame ginecológico completo, que é realizado para verificar a existência de lesões no colo do útero, na vagina e na vulva”, explica Letícia.
Gabrielle orienta que é fundamental uma prevenção combinada. “Unir diversas estratégias como vacina, rastreamento de câncer de colo de útero (exames anuais do colo uterino, Papanicolau e pesquisa de HPV) e uso de preservativos”, diz.
Proteção contra Hepatite B evita câncer de fígado
O vírus da hepatite B (HBV) é um dos principais causadores do carcinoma hepatocelular, e pode causar cirrose. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 12.350 novos casos anuais no Brasil no triênio 2026–2028, atingindo predominantemente homens e pessoas mais velhas com idade mediana de 68 anos.
A vacina é a principal forma de proteção. Ela é oferecida gratuitamente pelo SUS para pessoas de todas as idades. Recém-nascidos tomam a primeira dose nas primeiras 12 horas de vida, seguida de três doses da vacina pentavalente aos dois, quatro e seis meses. A partir dos sete anos, quem não tiver o esquema completo deve receber as três doses.
“No caso das hepatites, além das vacinas, há também antivirais que podem reduzir a progressão da doença e a incidência do câncer de fígado”, conclui Gabrielle.


