— Quando você entra nas redes sociais e, ao rolar a tela, tudo o que lhe é recomendado, sendo uma jovem, é “você deveria perder peso, deveria ficar magra e deveria usar Ozempic”, certamente isso contribui para uma sobrecarga mental — afirma Jessica Johnson, de 19 anos, que desenvolveu um transtorno alimentar aos 16 anos, motivo principal pelo qual abandonou o ensino médio perto de Vancouver. — Isso me deixa triste, porque roubou tantos anos da minha vida, anos em que eu odiava a imagem que via no espelho.
Embora a questão abranja o Instagram e o YouTube, o TikTok se tornou o epicentro nas redes sociais do frenesi em torno de medicamentos para perda de peso. A base de usuários jovem do aplicativo de vídeos, seu algoritmo notoriamente poderoso e sua forte presença no comércio eletrônico por meio do TikTok Shop — um destino importante para suplementos e produtos voltados ao bem-estar — colocaram a plataforma em um patamar à parte, tornando-a um terreno fértil para startups de telessaúde, marcas e influenciadores que promovem seus produtos e serviços.
Um porta-voz do TikTok nos EUA afirmou, por e-mail, que a empresa proíbe postagens — incluindo conteúdo patrocinado — que exibam transtornos alimentares ou comportamentos perigosos de perda de peso para todos os usuários, e que só exibe anúncios com alegações sobre perda de peso ou ganho de massa muscular para usuários com 18 anos ou mais.
O Instagram, da Meta Platforms Inc., não permite conteúdo que incentive transtornos alimentares ou contenha instruções para comportamentos extremos de perda de peso, disse um porta-voz da Meta por e-mail; regras adicionais se aplicam a adolescentes menores de 18 anos, incluindo a proibição de exibir a eles anúncios de produtos ou serviços de perda de peso
Um porta-voz do YouTube, que pertence à Alphabet Inc., informou por e-mail que a plataforma bloqueia anúncios de produtos para perda de peso e medicamentos sob prescrição, além de limitar a frequência com que sugere “vídeos que idealizam tipos físicos específicos” quando o usuário é criança ou adolescente. “Desenvolvemos o YouTube para proteger a saúde e o bem-estar dos jovens”, disse o porta-voz.
Ainda assim, embora as empresas tenham adotado medidas para proteger os usuários e combater alguns conteúdos problemáticos e marketing enganoso, os criadores de conteúdo encontram facilmente formas de contornar as regras — e os adolescentes sabem como encontrá-las. A hashtag #WIEIAD (abreviação de “what I eat in a day”, ou “o que como em um dia”) tornou-se uma porta de entrada importante para conteúdos sobre GLP-1 voltados ao público feminino no TikTok; outras postagens celebram a “teen wl” (ou “perda de peso entre adolescentes”). Segundo os jovens, basta interagir uma ou duas vezes com esse tipo de material para que ele se torne onipresente em seus feeds do TikTok.
Eles rapidamente aprendem o que pesquisar para encontrar conteúdos menos acessíveis, utilizando uma linguagem própria do algoritmo — o chamado “algospeak” — que está em constante evolução. Alguns resumos gerados por IA, exibidos na popular ferramenta de busca do TikTok — que os jovens utilizam como se fosse o Google ou o ChatGPT —, oferecem dicas sobre o que dizer ao médico para tentar obter uma receita de GLP-1 e como insistir caso o médico recuse o pedido. Pesquisas sobre transformações físicas com o uso de GLP-1 e injeções de peptídeos figuraram entre os termos mais buscados em julho por todos os usuários do TikTok, de acordo com a central de dados e insights da plataforma voltada para criadores. (Algumas buscas no TikTok também exibem recursos de apoio para pessoas que sofrem de transtornos alimentares, observou o porta-voz do TikTok nos EUA.)
A FDA, agência responsável pela regulamentação do marketing de medicamentos dos Estados Unidos, tem tomado medidas para coibir a publicidade enganosa de fármacos campeões de vendas, incluindo os da classe GLP-1. Isso inclui o envio de “mais de cem cartas de advertência a empresas de telessaúde, expressando preocupações quanto a alegações falsas ou enganosas”, bem como o envio de “cartas de notificação de conformidade aos patrocinadores de medicamentos prescritos devido a comunicações promocionais falsas ou enganosas nas redes sociais”, afirmou um porta-voz da FDA por e-mail. A agência também tem sinalizado ao TikTok a presença de alegações falsas ou enganosas em sua plataforma, acrescentou o porta-voz. “A agência continuará a tomar medidas para proteger os consumidores contra alegações falsas e enganosas relacionadas aos produtos GLP-1.”
No entanto, fazer cumprir as regulamentações nas redes sociais é um desafio árduo. As diretrizes não acompanham o cenário em rápida transformação: novas postagens surgem a todo momento, e as próprias regras podem ser pouco claras. No TikTok, por exemplo, a plataforma proíbe a venda de medicamentos sob prescrição em sua loja, e produtos com “GLP”, “GLP-1” ou termos semelhantes no título ou na marca são vetados. No entanto, produtos comercializados como auxiliares para pessoas que utilizam medicamentos à base de GLP-1 são permitidos — e estão proliferando.
De volta à Austrália, onde o uso de redes sociais foi recentemente proibido para menores de 16 anos, Prosser superou seu transtorno alimentar. Ainda assim, a enxurrada constante de conteúdo e anúncios nas redes sociais promovendo a perda de peso — somada à infinidade de imagens e vídeos gerados ou alterados por inteligência artificial — tornou sua jornada de recuperação da saúde muito mais difícil e dolorosa.
— Nossos algoritmos jogam contra nós — diz ela. — Não dá para culpá-los diretamente por causar os problemas, mas eles definitivamente os perpetuam.
Fonte: Jornal O Globo.