A quebra da patente da semaglutida, em março, aumentou a expectativa por alternativas mais acessíveis das chamadas canetas antiobesidade ou “emagrecedoras”, entre as quais estão medicamentos como Ozempic e Wegovy. O que muitos não sabem, porém, é que os efeitos desses fármacos na perda de peso estão longe de ser uniformes — há evidências de que um em cada dez pacientes não atinge o peso esperado nos primeiros meses de uso.
Outro fator é a farmacocinética, ou seja, a forma como o organismo absorve, distribui e metaboliza o medicamento. Em estudo de 2021, publicado na Cell Reports Medicine, pesquisadores mostraram que a resposta clínica à semaglutida depende sobretudo dos níveis circulantes da droga no sangue, e não da via de administração, oral ou injetável. O trabalho também indicou que maior peso corporal está associado a menor exposição ao medicamento, o que ajuda a explicar parte da variação na resposta.
O uso de outros medicamentos também pode interferir. As diretrizes da Sociedade de Endocrinologia, comunidade global de médicos e cientistas, recomendam reavaliar fármacos que favoreçam ganho de peso e, quando possível, substituí-los por alternativas neutras ou que ajudem na perda. Entre os exemplos citados estão insulina, antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, glicocorticoides e contraceptivos injetáveis.
Há ainda um possível componente genético nessa variabilidade. Em estudo recém-publicado na Nature, feito com 27.885 pessoas usando esses medicamentos, pesquisadores identificaram uma variante no gene do receptor de GLP-1 ligada a maior eficácia do tratamento. O trabalho encontrou ainda associações entre variantes genéticas e maior risco de náusea e vômito, sobretudo em relação à tirzepatida. Os resultados sugerem que diferenças genéticas podem influenciar tanto a eficácia quanto os efeitos colaterais, abrindo espaço para abordagens mais personalizadas no futuro.
Quando o tratamento falha
Ao não atingir a perda de peso esperada, a primeira medida é revisar a abordagem terapêutica. Segundo o consenso da Sociedade de Endocrinologia, o primeiro passo é verificar se o ajuste da dose foi feito corretamente, se a dose chegou ao nível recomendado e se houve continuidade no uso.
Em paralelo, é preciso avaliar fatores clínicos e comportamentais que podem atrapalhar a resposta, como dieta, consumo de álcool, qualidade do sono, estresse, comorbidades — sobretudo doenças endócrinas — e o uso de outros medicamentos associados ao ganho de peso. “Quando a gente se alimenta, há liberação de hormônios ligados a saciedade e redução do apetite. Mas alguns pacientes não têm essa resposta, e o impulso para comer pode estar mais relacionado a fatores emocionais, chamados de hedônicos”, afirma Rosenbaum. “Esses indivíduos, muitas vezes, não respondem tão bem.”
Só depois dessa revisão mais ampla é que se aplica a chamada regra de resposta mínima. Quando o tratamento é considerado eficaz, a orientação é mantê-lo, com acompanhamento periódico de segurança e estratégias para sustentar a perda de peso no longo prazo. Já quando a resposta é insuficiente, a estratégia pode ser ajustada com reforço das mudanças de estilo de vida, refinamento da dose ou troca do medicamento.
Custo-benefício
Em tratamentos caros como semaglutida e tirzepatida, a diferença entre quem responde bem e quem obtém benefício limitado entra diretamente na conta de custo-efetividade. Por isso, diferentes países têm adotado critérios mais rígidos para indicar e financiar essas terapias. No Reino Unido, o órgão responsável por avaliar tecnologias em saúde recomendou a semaglutida para sobrepeso e obesidade apenas em casos específicos, com prazo máximo de uso (dois anos) e acompanhamento em serviço multidisciplinar especializado. Já no Canadá, o reembolso público também passou a depender de critérios clínicos e da adoção concomitante de medidas como dieta e atividade física.
No Brasil, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) no Sistema Único de Saúde (SUS) avaliou, em agosto de 2025, um pedido da Novo Nordisk, farmacêutica dinamarquesa que desenvolveu a liraglutida e a semaglutida, para incorporar os medicamentos ao SUS no tratamento da obesidade. A proposta foi rejeitada em razão de alto impacto orçamentário e incertezas sobre o custo-benefício em larga escala.
Ainda assim, a discussão segue aberta. Em 2026, a Novo Nordisk anunciou um programa de acesso que prevê a oferta do Wegovy em caráter piloto na rede pública, no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Segundo a empresa, a iniciativa pretende gerar dados sobre o impacto clínico, social e econômico da semaglutida em pacientes com obesidade grave, com foco em populações mais vulneráveis e na redução de complicações de alto custo, como internações e procedimentos cardiovasculares.
“Ampliar o acesso no sistema público não deve mudar a proporção de pacientes que respondem ou não ao tratamento”, afirma Rosenbaum. “Essa variação existe tanto no setor público quanto no privado.” Por isso, é fundamental alinhar expectativas desde o início e evitar a interrupção sem acompanhamento médico.



