Produtos de nicotina sem combustão avançam pelos países e estão prestes a serem reavaliados pela Anvisa; como eles agem?


No final de junho, os Estados Unidos permitiram que algumas bolsas de nicotina sejam comercializadas como menos nocivas do que os cigarros, parte de uma estratégia de redução de danos. No Brasil, os produtos, também conhecidos como sachês, não são permitidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas o órgão deu início a um processo de análise regulatória que pode abrir caminho, ou não, para uma aprovação futura.

A indústria tem investido nos sachês como uma alternativa melhor por não terem as substâncias presentes no tabaco e geradas pela queima e não serem consumidos via inalação. Além disso, mesmo sem regulamentação, é possível encontrar produtos online à venda decorrentes do contrabando.

Parte dos especialistas, no entanto, vê o cenário com cautela e acredita que a entrada no Brasil pode gerar uma nova geração de dependentes de nicotina devido ao apelo entre os mais jovens, em vez de reduzir o uso do cigarro convencional.

O produto é uma mistura em pó feita a partir da nicotina extraída das folhas de tabaco ou da nicotina sintética junto com substâncias como adoçantes, aromatizantes, saborizantes e outros aditivos. O conteúdo é embalado como um sachê que se dissolve ao ser colocado entre o dente e a gengiva. São novas versões do “snus”, sachê original desenvolvido na Suécia, mas que é feito com tabaco úmido.

Nos EUA, os produtos já são aprovados, e a Food and Drug Administration (FDA) emitiu uma autorização de “risco modificado” para 20 sachês da marca ZYN, da Philip Morris, que agora poderão carregar uma alegação de que “usar ZYN em vez de cigarros coloca você em menor risco de câncer de boca, doenças cardíacas, câncer de pulmão, acidente vascular cerebral (AVC), enfisema e bronquite crônica”.

A agência reforça que os produtos, em versões com sabores como menta, citrus e café e contendo de 3 mg a 6 mg de nicotina, não são isentos de riscos e não devem ser consumidos por quem não utiliza tabaco, mas alega que podem ser considerados como uma alternativa para “reduzir a exposição a muitas das substâncias químicas nocivas presentes nos cigarros”.

Outro formato que tem crescido é o dos dispositivos de tabaco aquecido, como o IQOS, da mesma Philip Morris, e o glo, da British American Tobacco. Neles, o conteúdo é aquecido entre 250 e 350 °C, bem abaixo dos 700 a 900 °C do cigarro tradicional.

Cenário brasileiro

No Brasil, segundo a Anvisa, não há nenhuma bolsa de nicotina autorizada para venda. Além disso, não há regras específicas para os produtos devido a uma questão de classificação regulatória, já que eles não se enquadram na categoria do cigarro ou dos vapes. Por isso, o tema entrou na agenda regulatória para 2026-2027 da autarquia.

Em nota, a Anvisa diz que “a revisão não tem como objetivo regularizar os sachês, mas analisar o enquadramento desses produtos” na legislação sanitária brasileira. A análise “busca tratar a questão sob a ótica técnica e sanitária”, complementa. Uma consulta pública já foi realizada pela agência, e um relatório será elaborado em breve.

Snus, sachês de nicotin desenvolvidos na Suécia

A Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro sobre Controle do Uso do Tabaco e de seus Protocolos (Conicq) se posicionou de forma contrária à liberação, conta a secretária executiva, Vera Luiza da Costa e Silva, pesquisadora da Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Fiocruz (Cetab):

Não temos hoje comprovação científica de que os usuários de tabaco realmente trocam o cigarro pelos sachês. E são produtos muito atraentes para crianças e adolescentes, que funcionam como uma porta de entrada para a dependência de nicotina. Seria trocar uma epidemia de cigarros por uma de nicotina, que envolve os cigarros, mas também os vapes e os sachês.

Ainda assim, já é possível encontrar produtos online à venda decorrentes do contrabando. Uma pesquisa patrocinada pela Philip Morris e conduzida pela Escola de Segurança Multidimensional da USP, em parceria com a Ipsos, entre agosto e setembro de 2025, apontou que 3% da população adulta consumiu os sachês nos últimos seis meses.

Pelo mundo, cerca de 160 países não possuem regulamentações específicas para os sachês, como o Brasil, enquanto 16 proíbem a sua comercialização e 32 regulamentam de alguma forma. Nesses, 5 restringem os sabores e 21 vetam publicidade, segundo um relatório divulgado em maio pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em nota, a Philip Morris diz acompanhar a análise da Anvisa e que “contribui para o debate técnico sempre que oportuno, com base em evidências científicas e na experiência observada em diferentes mercados”. Outra grande empresa do setor, a British American Tobacco (BAT), responsável pela bolsa de nicotina da marca Velo, afirma acreditar na “regulação responsável e baseada em evidências científicas”.

A ausência de combustão é sim um componente importante nessa discussão, porque ela libera uma série de substâncias tóxicas que vão além da nicotina. Por isso, os sachês são uma estratégia possível de ser avaliada como redução de danos. Ainda tem nicotina, ainda causa dependência, não é um produto seguro, mas o propósito é trocar o cigarro por uma alternativa melhor e tratar a dependência a longo prazo — defende Bruno Dias, pneumologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCUSP) e do Hospital Nove de Julho.

A indústria do tabaco tem apostado em alternativas que deixam de lado a combustão e prometem menos danos, como os cigarros eletrônicos e, agora, os sachês. Um dos principais argumentos é que é melhor regulamentar o consumo, para evitar contrabando e produtos irregulares. No Brasil, os vapes são proibidos desde 2009, e a Anvisa, após amplo debate com especialistas e a sociedade civil, manteve a proibição em 2024.

Redução de danos ou novos dependentes?

No relatório, a OMS alerta para a “rápida expansão global dos sachês de nicotina, que vêm sendo comercializados de forma agressiva para adolescentes e jovens”. O mercado global foi avaliado em quase US$ 7 bilhões em 2025 e deve subir para mais de US$ 40 bilhões até 2033, de acordo com uma análise da Grand View Research.

Segundo a organização, embora as empresas aleguem que seus produtos são uma alternativa a quem já fuma, as táticas de marketing utilizadas miram os mais novos, com sabores como chiclete e bala, iniciativas com influenciadores, forte presença nas redes sociais e patrocínio de festivais e eventos esportivos, incluindo a Fórmula 1, para normalizar o uso de nicotina.

Um dos problemas é que a grande maioria das bolsas têm de 4 a 18 mg de nicotina, com algumas marcas que chegam a 120 mg por unidade. Enquanto isso, um cigarro tem, no máximo, 1 mg de nicotina, lembra o pneumologista Paulo Corrêa, coordenador da iniciativa Education Against Tobacco no Brasil e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop):

Esses produtos causam uma forte dependência e têm diversos riscos associados, como maior chance de câncer de cavidade oral, esôfago e pâncreas, danos cardiovasculares. E carregam outras substâncias danosas, como formaldeído, metais como níquel e cromo, e outras que ainda estão sendo estudadas. Já as terapias de reposição de nicotina aprovadas, como gomas e adesivos, não têm essas substâncias, têm concentrações controladas de nicotina, benefício comprovado no auxílio da cessação e não são promovidas para uso recreativo.

Para os especialistas, os riscos da introdução das bolsas são semelhantes aos dos cigarros eletrônicos, também promovidos como uma redução de danos ao tabagismo, mas que vem conquistando espaço entre os jovens. Segundo o terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), de 2023, 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos no país fazem uso dos vapes, percentual que é de apenas 2,4% entre os adultos, segundo dados de 2024 da Vigitel.

Nos EUA, a Pesquisa Nacional sobre o Uso de Tabaco entre Jovens de 2025, mostrou que 5,2% dos estudantes do ensino fundamental e médio fazem uso dos vapes, e 1,7% dos sachês de nicotina. E mais de 9 em cada 10 usuários jovens das bolsas optam pelos produtos com sabores, como os de menta e de frutas.

As táticas que a indústria tem empregado para promover esses produtos são bem semelhantes às do passado e têm como objetivo recuperar consumidores, muito mais do que reduzir o uso do cigarro convencional. Aguardamos a avaliação técnica da Anvisa sobre o tema, mas a princípio não somos favoráveis à liberação de novos produtos de nicotina que não tem eficácia comprovada para auxiliar na cessação e que podem atrair os jovens — diz Mônica Andreis, diretora-presidente da ACT Promoção da Saúde, antiga Aliança de Controle do Tabagismo.

Suécia e Japão

Uma revisão de estudos sobre o tema publicada no ano passado na revista científica Cochrane concluiu que as evidências disponíveis até agora sobre o uso de bolsas de nicotina para cessação ou redução do uso de cigarros de fato são limitadas. Do outro lado, no entanto, países como Suécia e Japão, onde os produtos são amplamente utilizados, a prevalência de uso do cigarro caiu nas últimas décadas.

Consumido por 1 em cada 7 suecos, o “snus” contribuiu para reduzir o número de fumantes de 15% para 5% em menos de 20 anos, segundo o governo do país, a menor taxa hoje da Europa. No Japão, o tabagismo caiu de 21% para 16% em menos de 10 anos. O uso total de tabaco e nicotina na Suécia, porém, que inclui os vapes e os sachês, está em 28% e aumentando.

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Usa-se muito o exemplo da Suécia, mas lá existe um altíssimo consumo desses outros produtos, então a dependência de nicotina permanece elevada. No final, é um problema grande do mesmo jeito. Hoje em dia não podemos falar só de fumaça, precisamos falar da droga, que é a nicotina, que vem cada vez com novas roupagens — avalia Vera.

Dias, que defende a estratégia de uso dos sachês, argumenta que é possível uma liberação que evite o apelo entre os mais jovens e aqueles que não fumam. Para isso, diz que é preciso haver regras rígidas sobre quantidade, sabores e publicidade:

Para redução de danos, não faz sentido ter sachês com mais de 6 mg de nicotina. Limitar sabores apelativos também é importante, e o marketing precisa ser muito regulado, porque de fato existe uma estratégia forte em outros países de usar influenciadores — afirma.

O Brasil, mesmo sem a liberação dos vapes e sachês, também é considerado um exemplo no combate ao tabagismo. Foi pioneiro, junto com a Turquia, a colocar em prática todas as ações recomendadas pela OMS. Como resultado, o uso saiu de 34,8% da população adulta, em 1989, para 9% em 2021. Em 2024, porém, a taxa subiu para 11,5%.

Os especialistas contrários aos novos produtos de nicotina consideram que uma ação mais importante para retomar a queda do tabagismo seria o aumento do preço do cigarro. Em 2011, o país estabeleceu uma política de valor mínimo, que passou a subir anualmente acima da inflação para desestimular o consumo. No entanto, esses reajustes foram congelados a partir de 2016, permanecendo em R$ 5,00 até 2024, quando o governo alterou para R$ 6,50. Agora, em 2026, o preço subiu para R$ 7,50, mas o cigarro no Brasil segue sendo o terceiro mais barato na América do Sul.

Fonte: Jornal O Globo. 

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