Quando respirar vira tratamento


Na medicina hiperbárica, o oxigênio deixa de ser apenas um elemento essencial à vida e passa a ser utilizado como recurso terapêutico. Sob indicação médica, em ambiente controlado e com equipe treinada, ele pode ajudar o organismo em situações onde os tecidos estão sofrendo por falta de oxigenação, infecção grave ou dificuldade de cicatrização.

O paciente entra em uma câmara pressurizada e respira oxigênio puro. A sessão dura 90 minutos. Para quem vê de fora, pode parecer simples mas, do ponto de vista médico, trata-se de uma intervenção fisiológica complexa.

“A Oxigenoterapia Hiperbárica aumenta de forma importante a quantidade de oxigênio disponível no corpo e cria condições para que processos como controle da infecção, redução do edema, formação de novos vasos sanguíneos e reparo tecidual ocorram de maneira mais eficiente”, explica o Dr. Marcus Vinícius de Moraes.

Além da atuação clínica, Dr. Marcus participa de pesquisas experimentais com Oxigenoterapia Hiperbárica em modelos animais de diabetes, uma área que ajuda a compreender melhor os efeitos do oxigênio sob pressão sobre inflamação, cicatrização e metabolismo.

O QUE ACONTECE QUANDO FALTA OXIGÊNIO

Toda atividade do corpo depende do oxigênio. A formação de novas células, a produção de colágeno, a reconstrução de vasos sanguíneos e parte da defesa contra bactérias exigem esse elemento invisível. Quando a circulação falha, o tecido entra em sofrimento. Isso pode acontecer em diferentes situações: diabetes descontrolada, doenças vasculares, traumas, infecções graves, complicações cirúrgicas ou lesões provocadas por radioterapia. Nesses casos, o sangue pode não conseguir entregar oxigênio em quantidade suficiente. A ferida não fecha. A infecção persiste. O risco de perda de tecido aumenta

Dentro da câmara hiperbárica, o paciente respira oxigênio a 100% sob uma pressão maior que a atmosférica. Nessa condição, uma quantidade muito maior de oxigênio passa a circular dissolvida no sangue, alcançando áreas onde os vasos estão comprometidos ou parcialmente destruídos.

“A medicina hiperbárica não usa apenas o oxigênio como um medicamento isolado. Ela utiliza uma condição física específica, a pressão, para aumentar a oferta de oxigênio e estimular respostas biológicas do próprio organismo”, resume o Dr. Marcus.

PARA QUEM A TERAPIA É INDICADA

Um dos exemplos mais conhecidos é o pé diabético. Feridas que começam pequenas podem evoluir rapidamente para infecções profundas, atingir ossos e, em casos graves, levar à amputação. Em pacientes selecionados, especialmente quando há sofrimento tecidual e dificuldade de cicatrização, a Oxigenoterapia Hiperbárica pode fazer parte do tratamento.

Mas as indicações não se limitam ao pé diabético. A terapia também pode ser considerada em lesões de difícil cicatrização, infecções graves inclusive dos ossos, lesões causadas por radioterapia, grandes queimaduras, doença descompressiva e intoxicação por monóxido de carbono, entre outras condições reconhecidas.

Na maioria das situações, a Hiperbárica não substitui cirurgia, curativos, antibióticos e acompanhamento especializado. Ela entra como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado.

“Ela é uma ferramenta valiosa para clínicos e cirurgiões quando bem indicada. Não substitui as medidas tradicionais e sim, cria condições para que essas medidas funcionem melhor”, explica o médico.

DEMORAR PARA INICIAR PODE TER CONSEQUÊNCIAS

Durante muitos anos, a Hiperbárica foi vista como uma última tentativa, acionada apenas depois quando outros tratamentos já haviam falhado. “Precisamos abandonar a ideia de que a Hiperbárica só deve ser lembrada quando tudo deu errado. Em muitas situações, ela precisa ser considerada mais cedo, enquanto ainda existe tecido viável a ser preservado”, defende o presidente da SBMH. Quando um tecido perde irrigação sanguínea, há uma janela de tempo limitada para se intervir. Se o suporte adequado chega a tempo, pode haver recuperação. Se houver demora, o tecido pode evoluir para necrose. E tecido morto não é recuperado pela Hiperbárica. A terapia pode ajudar tecidos vivos em sofrimento. Não ressuscita tecidos já necrosados.

COMO É A SESSÃO

A sessão ocorre dentro de uma câmara hiperbárica, equipamento preparado para expor o paciente ao oxigênio sob pressão. No início, há uma fase de pressurização. A sensação mais comum ocorre nos ouvidos e é semelhante à que ocorre durante a decolagem ou pouso de um avião. A equipe orienta o paciente sobre manobras simples para equalizar essa pressão. Esse cuidado é importante para evitar desconforto e tornar o tratamento mais seguro. Durante a sessão, o paciente permanece acordado. Pode descansar, assistir televisão ou simplesmente permanecer deitado. Em pessoas com ansiedade ou claustrofobia, a avaliação médica pode indicar medidas específicas para melhorar a tolerância. A Oxigenoterapia Hiperbárica não é tratamento de sessão única. É um tratamento seriado. O número de sessões depende da indicação, da gravidade do caso e da resposta clínica observada ao longo do tratamento.

O PAPEL DA ENFERMAGEM HIPERBÁRICA

A segurança do tratamento não depende apenas do equipamento mas de uma cadeia assistencial bem organizada. Nesse ponto, a enfermagem hiperbárica tem papel fundamental.

Um aspecto relevante na assistência aos pacientes que realizam Oxigenoterapia Hiperbárica é a presença de enfermeira com formação específica na área. Essa formação representa um fator adicional de segurança e mostra a evolução da atividade.

“A Hiperbárica possui particularidades que exigem conhecimento próprio: os efeitos da pressão sobre o de oxigênio, os cuidados com curativos, os riscos individuais de cada paciente e as intercorrências que podem surgir durante a sessão”, acrescenta Bárbara Moraes, enfermeira hiperbarista.

Além da formação específica, a equipe recebe treinamento contínuo em protocolos de segurança e condução das situações mais frequentes. Cada paciente possui necessidades e riscos próprios, exigindo acompanhamento individualizado. Na Clínica Hiperbárica Natal, que completou 15 anos este ano, a equipe se reúne periodicamente para revisão e discussão de casos. Nesses encontros, detalhes clínicos são analisados para que o tratamento seja conduzido de forma individualizada. Essa atuação mostra que a Hiperbárica moderna não é apenas tecnologia. É cuidado multiprofissional, protocolo e vigilância contínua.

CIÊNCIA VERSUS MODISMO

Não é raro encontrar promessas relacionadas a rejuvenescimento, melhora estética, desempenho físico ou mental e tratamento de condições ainda controversas. Temas como autismo e lipedema continuam sendo estudados, mas ainda não possuem evidência científica suficiente para justificar indicação rotineira da Oxigenoterapia Hiperbárica. “Investigação científica não é a mesma coisa que indicação clínica estabelecida”, ressalta o Dr. Marcus Vinícius de Moraes.

Por isso, o paciente deve buscar profissionais experientes, capazes de diferenciar tratamentos reconhecidos daqueles que ainda estão em investigação.

QUANDO INDICAR A HIPERBÁRICA

  • Feridas que não cicatrizam.
  • Pé diabético.
  • Infecções graves.
  • Infecção nos ossos.
  • Lesões pós-radioterapia.
  • Falta de oxigênio na pele após cirurgias.

MITOS & VERDADES

Rejuvenesce? Não. Não há evidências clínicas.

Substitui cirurgia ou antibióticos? Não. Agem em conjunto.

Uma sessão resolve? Não.  É um tratamento seriado.

Serve para qualquer ferida? Não. Depende de avaliação caso a caso.

SEGURANÇA, INDICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES

A Oxigenoterapia Hiperbárica é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina como tratamento médico desde 1995. Isso significa que sua indicação deve ser feita por médico, após avaliação clínica e análise dos riscos e benefícios. A maioria das contraindicações são relativas e podem não impedir a realização do tratamento, mas exigem avaliação cuidadosa e preparo individualizado.

“A consulta com o médico hiperbarista é uma etapa central. É nesse momento que avaliamos se há indicação, identificamos riscos, orientamos o paciente e definimos o protocolo mais seguro”, reforça o Dr. Marcus.

Em Hiperbárica, segurança não depende apenas da câmara mas de uma equipe capaz de indicar corretamente o tratamento, acompanhar a evolução do paciente e agir com segurança diante de possíveis intercorrências.

UMA ÁREA QUE AMADURECE

A Oxigenoterapia Hiperbárica vive um momento de maior padronização, qualificação profissional e integração com outras áreas da medicina.

Para o paciente, isso significa mais segurança, critérios mais claros de indicação e maior compromisso com a qualidade assistencial.

A Sociedade Brasileira de Medicina Marítima e Hiperbárica trabalha para fortalecer a formação dos médicos hiperbaristas e estimular boas práticas em todo o país.

A terapia transforma um elemento essencial à vida em uma ferramenta terapêutica capaz de ajudar na preservação de tecidos, no controle de infecções e na recuperação de pacientes com condições complexas.

CLÍNICA HIPERBÁRICA NATAL

Instagram: @hiperbaricanatal.

Contato: (84) 3220 5462/ 99610 9999.

Localização: Rua Maxaranguape, 614 – Petrópolis.

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