A era do estresse digital


Você acorda, pega o celular e, antes mesmo de colocar os pés no chão, começa. Uma guerra do outro lado do mundo. Uma crise econômica. Um crime brutal. Uma nova doença. Um vídeo de alguém indignado. Outro dizendo que tudo vai piorar. Mensagens do trabalho. Problemas de pessoas próximas.

Talvez tenham se passado apenas dez minutos desde que você abriu os olhos. Você ainda nem tomou café, mas seu cérebro já recebeu uma carga de preocupações que, algumas décadas atrás, uma pessoa provavelmente levaria dias ou semanas para receber. O acesso à informação atual trouxe enormes benefícios, mas existe uma pergunta que fazemos pouco: será que nosso cérebro está preparado para receber tudo isso? Provavelmente não.

Durante milhares de anos, o cérebro humano evoluiu prestando atenção principalmente ao ambiente ao seu redor. Era importante saber se havia comida, abrigo, segurança e algum perigo próximo. Hoje, sentado dentro de casa, podemos acompanhar em tempo real praticamente todos os problemas do planeta. E nosso organismo não reage apenas àquilo que está acontecendo conosco naquele momento. Imaginar, antecipar ou interpretar uma situação como ameaçadora também pode ativar mecanismos de estresse.

Pense em uma situação simples. Se um cachorro agressivo correr em sua direção, seu coração acelera, a respiração muda, os músculos ficam tensos e seu corpo se prepara para reagir. Essa resposta é fundamental para nossa sobrevivência. Mas, não precisamos necessariamente estar diante de um cachorro bravo para colocar o organismo em alerta. Uma sequência de notícias sobre violência, doenças, guerras, problemas financeiros ou qualquer assunto que percebamos como ameaçador também pode provocar preocupação, ansiedade e tensão.

O cachorro não está ali. Mas, para alguns mecanismos de defesa do nosso organismo, a ameaça imaginada também importa. E talvez o maior problema atual seja a sua frequência. Não recebemos uma notícia ruim e seguimos o dia. Recebemos dezenas delas.

Existe ainda um agravante. Temos uma tendência natural a prestar mais atenção às ameaças. Do ponto de vista evolutivo, isso fazia todo sentido. Para nossos ancestrais, um possível perigo poderia custar a vida.

Homem deitado na cama com o rosto para baixo e o celular na mão. Frustração

Por isso, notícias negativas capturam tão facilmente nossa atenção. E as plataformas digitais sabem disso. Quanto mais algo provoca medo, raiva, indignação ou surpresa, maior a possibilidade de permanecermos olhando.

Não estou defendendo que deixemos de acompanhar as notícias. Informação é fundamental, mas precisamos aprender a colocar nossos próprios limites. Assim como prestamos atenção àquilo que colocamos no prato, deveríamos observar aquilo que colocamos na cabeça.

Uma primeira medida é definir horários para se informar. Escolha fontes confiáveis e um ou dois momentos do dia. Você continuará sabendo o que acontece no mundo sem precisar acompanhar cada atualização. Desative também notificações que não sejam realmente necessárias. Cada aviso é um convite para interromper o que estamos fazendo e voltar nossa atenção para uma nova informação. Crie períodos sem tela, principalmente perto da hora de dormir. O cérebro precisa de momentos em que não esteja sendo permanentemente estimulado.

E coloque duas coisas na rotina que são excelentes protetores da saúde emocional: movimento e pessoas. Atividade física ajuda a regular o estresse, melhora o humor e favorece o sono. Caminhar, pedalar, fazer musculação, nadar ou praticar um esporte são maneiras de devolver ao corpo o movimento.

E preserve suas conexões sociais. Converse olhando nos olhos, encontre amigos, faça uma refeição em família, dê risada, escute alguém. Relações humanas de qualidade são parte importante de uma vida saudável.

Fonte: Jornal O Globo.

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